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Em busca do felizes para sempre…

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Bruna Catarina Pavani

De acordo com Skinner (2009), amor nada mais é do que reforçamento positivo.

É natural olharmos para o amor como se ele fosse algo definitivo, porém, a forma como vamos amar é construída socialmente, de acordo com a cultura, época, crenças e valores. Um exemplo é: a forma como as pessoas se relacionavam no século XX é diferente de como se relacionam hoje no século XXI.

Uma das maiores procuras dentro de um consultório psicoterapêutico está relacionada a questões de relacionamentos amorosos. Ao longo dos anos pudemos notar diversas mudanças nas formas como as pessoas foram se relacionando e é sobre isso que iremos conversar aqui hoje.

Hoje, notamos um padrão nos relacionamentos atuais: menor durabilidade das uniões, menor tolerância aos conflitos, menos paciência e mais imediatismo. (Shema, Oliveira, 2013), porém, no consultório, ainda é possível notar o quanto as pessoas idealizam o amor romântico. De acordo com Lins (2017), amor romântico é quando você idealiza a pessoa amada e projeta nela tudo o que gostaria que ela fosse, mas quando você realmente começa a conviver com a pessoa no dia a dia, você vai percebendo que nada disso é real.

Mas de onde surge essa ideia do amor romântico?

Antigamente, o único amor aceito, era o amor direcionado a Deus, pois até então, os relacionamentos se davam através de contratos sociais, mas a partir do século XIX, o ideal amoroso passou a ser uma possibilidade para o casamento, sendo os filmes, uma das grandes influências nesta época. (LINS, 2017, p.24)

Podemos pensar que uma grande influência ao longo do tempo, foram os contos de fadas. Maia, Venturin, Longhitano, Leite e Gravalos (2020) apontam que, os valores primordiais em sociedade apresentados nos contos de fadas, eram impostos para as crianças como algo a ser seguido.

Mas a ideia do amor romântico somado à nossa atualidade são contas que não se fecham, pois atualmente estamos buscando viver mais a nossa individualidade, nos conhecer mais, desenvolver nossos potenciais e o amor romântico prega o oposto disso: que os dois se transformam em um só.  Lins (2017) menciona que desde a infância somos condicionados a desejar esse tipo de amor – o amor romântico – mas, como já mencionado anteriormente, a forma como vamos amar é construída socialmente de acordo com a cultura, época, tempo, crenças, e o amor romântico foi funcional em determinadas épocas, mas não está sendo mais funcional no momento presente, porém, ainda nos comportamos seguindo a regra de que, devemos encontrar alguém e viver felizes para sempre com essa pessoa.

Não nos ensinam que, ‘’felizes para sempre’’ pode ter começo, meio e fim e pode durar uma vida toda, assim como, pode durar um dia. ‘’Felizes para sempre’’ pode ser com apenas uma pessoa ou com várias – ao mesmo tempo, ou não – ‘’felizes para sempre’’ pode ser em um relacionamento amoroso ou na construção de um sonho pessoal.

Penso que, como psicoterapeutas, precisamos ampliar o repertório de nossos clientes de acordo com a história de contingências que eles possuem, para que assim, eles possam encontrar os seus ‘’felizes para sempre’’ da forma como desejarem.

LINS, Regina Navarro. Novas formas de amar. São Paulo: Planeta do Brasil, 2017. 272 p.

MAIA, Ana Claudia Bortolozzi.; VENTURIN, Ana Beatriz.; LONGHITANO, Bianca.; RIBEIRO LEITE, Márcia Gabriela.; MACEDO GRAVALOS, Nathalia. PADRÕES DE BELEZA, FEMINILIDADE E CONJUGALIDADE EM PRINCESAS DA DISNEY: UMA ANÁLISE DE CONTINGÊNCIAS. Diversidade e Educação[S. l.], v. 8, n. Especiam, p. 123–142, 2020. Disponível em: https://periodicos.furg.br/divedu/article/view/9812.

SKINNER, B. F.. Walden II: uma sociedade do futuro. 2. Ed. São Paulo: EPU, 2009.

SMEHA, Luciane Najar; OLIVEIRA, Micheli Viera de. Os relacionamentos amorosos na contemporaneidade sob a óptica dos adultos jovens. Psicol. teor. prat.,  São Paulo ,  v. 15, n. 2, p. 33-45, ago.  2013.   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872013000200003&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  05  set.  2021.

Bruna Catarina Pavani – @psicobrupavani

Especialista em Análise do comportamento (ITCR) | Pós graduanda em Sexologia (INPASEX)
CRP 06/135021

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O golpe tá ai, cai realmente quem quer?

por Bruna Catarina Pavani

Atualmente muito se fala sobre golpe. E neste texto, entenderemos golpe como uma falha de comunicação entre uma ou ambas as partes sobre seus interesses amorosos.

Mas, antes de tudo, precisamos entender conceitualmente o que levaria uma pessoa a cair em um ‘’golpe’’.

Suponhamos que Maria está há um tempo sem se relacionar com ninguém e começa a sentir a necessidade de se relacionar novamente. Maria começa a se expor a situações em que tem a possibilidade de conhecer alguém (emite Sds para que seja reforçada positivamente) e em uma dessas exposições, Maria conhece José. Mas o que Maria não sabe (por não terem conversado), é que José está disponível apenas para conhecer novas pessoas, mas não para se envolver de uma forma mais profunda.

Tabela 1. Relacionamento de Maria e José:

 Operação MotivacionalAntecedenteRespostaConsequência
MariaPrivação de contatos amorososQuerer se relacionar[1]  Contextos em que há a oportunidade de interações sociais (reuniões presenciais, redes sociais, aplicativos, etc.)Se expor a situações que propiciem conhecer novas pessoas  Conhece JoséComeça a se relacionar com José Aproximar-se de José tem a função de suprir a privação de contato social
JoséAproveitar a vida [2]  Qualquer OM que evoque respostas de exploração e variação (a motivação de João o impele a experiências relacionadas a “aproveitar a vida“)Querer conhecer novas pessoas[3]  Contextos em que há a oportunidade de interações sociais (reuniões presenciais, redes sociais, aplicativos, etc.)Se expor a situações que propiciem conhecer novas pessoas  Conhece Maria e outras pessoasAproximar-se de Maria tem a função de suprir sua motivação para a exploração de novas experiências[4] 

Podemos pensar que, a operação motivadora (OM – aquela que, momentaneamente, altera a efetividade reforçadora de um estímulo) é diferente para cada pessoa e com isso, a função do relacionamento também será, levando a diferenças na forma com que irão lidar com ele.

Então, voltando ao caso de Maria e José, pensemos numa situação em que eles estão juntos e José é carinhoso com Maria, dá atenção a ela, demonstra interesse…. a forma como Maria interpretaria isso (e agiria), seria de acordo com a sua operação motivacional, vejamos a seguir:

Tabela 2. Relacionamento de Maria e José:

 Operação MotivacionalAntecedenteRespostaConsequência
JoséOM que evoque respostas de exploração e variação  Na presença de pessoas de seu interesse  José será atencioso, carinhoso, afetuoso Receber atençãoReceber afetoNova experiência  
MariaPrivação de contatos amorososNa presença de comportamentos afetivos de JoséMaria retribui os afetosSatisfação da condição de privaçãoMaria cria expectativas de uma relação futura.

Vejamos que não há nada de errado no comportamento de nenhum deles, afinal, cada um tem se comportado de acordo com a sua operação motivacional, a questão, é que a curto prazo essa relação será benéfica a ambos, mas a médio/longo prazo, um deles, não terá a sua necessidade suprida.

Mas como vamos saber qual é a operação motivacional de cada pessoa com quem vamos nos relacionar?

Penso que, antes de saber a do outro, é importante que você tenha consciência de qual é a sua, do que você busca, quais são os seus objetivos e, aí sim, você poderá avaliar se o outro conseguirá suprir suas necessidades ou não.

Ser transparente sobre seus interesses é essencial dentro de qualquer relação, seja ela amorosa ou não, não existe nada de errado em querer estar num relacionamento amoroso, assim como, está tudo bem querer apenas conhecer novas pessoas, desde que isso fique claro para ambos. Se, ao conhecerem-se, ambos não explicitarem o que estão buscando, o relacionamento pode ser frustrante para ambos. Ambos serão vítimas do mesmo golpe: a comunicação imprecisa.


querer não é antecedente. A privação é a OE ( e o querer é o sentimento correlato a essa OM)

Aproveitar a vida não pode ser uma OM. Pode ser um efeito da contingência, mas não é uma alteração ambiental momentânea que evoca comportamento

querer nunca é um antecedente

O interessante aqui é que o contexto é o mesmo, as respostas são as mesmas, mas com função diversa

Atualmente muito se fala sobre golpe. E neste texto, entenderemos golpe como uma falha de comunicação entre uma ou ambas as partes sobre seus interesses amorosos.

Mas, antes de tudo, precisamos entender conceitualmente o que levaria uma pessoa a cair em um ‘’golpe’’.

Suponhamos que Maria está há um tempo sem se relacionar com ninguém e começa a sentir a necessidade de se relacionar novamente. Maria começa a se expor a situações em que tem a possibilidade de conhecer alguém (emite Sds para que seja reforçada positivamente) e em uma dessas exposições, Maria conhece José. Mas o que Maria não sabe (por não terem conversado), é que José está disponível apenas para conhecer novas pessoas, mas não para se envolver de uma forma mais profunda.

Tabela 1. Relacionamento de Maria e José:

 Operação MotivacionalAntecedenteRespostaConsequência
MariaPrivação de contatos amorososQuerer se relacionar[1]  Contextos em que há a oportunidade de interações sociais (reuniões presenciais, redes sociais, aplicativos, etc.)Se expor a situações que propiciem conhecer novas pessoas  Conhece JoséComeça a se relacionar com José Aproximar-se de José tem a função de suprir a privação de contato social
JoséAproveitar a vida [2]  Qualquer OM que evoque respostas de exploração e variação (a motivação de João o impele a experiências relacionadas a “aproveitar a vida“)Querer conhecer novas pessoas[3]  Contextos em que há a oportunidade de interações sociais (reuniões presenciais, redes sociais, aplicativos, etc.)Se expor a situações que propiciem conhecer novas pessoas  Conhece Maria e outras pessoasAproximar-se de Maria tem a função de suprir sua motivação para a exploração de novas experiências[4] 

Podemos pensar que, a operação motivadora (OM – aquela que, momentaneamente, altera a efetividade reforçadora de um estímulo) é diferente para cada pessoa e com isso, a função do relacionamento também será, levando a diferenças na forma com que irão lidar com ele.

Então, voltando ao caso de Maria e José, pensemos numa situação em que eles estão juntos e José é carinhoso com Maria, dá atenção a ela, demonstra interesse…. a forma como Maria interpretaria isso (e agiria), seria de acordo com a sua operação motivacional, vejamos a seguir:

Tabela 2. Relacionamento de Maria e José:

 Operação MotivacionalAntecedenteRespostaConsequência
JoséOM que evoque respostas de exploração e variação  Na presença de pessoas de seu interesse  José será atencioso, carinhoso, afetuoso Receber atençãoReceber afetoNova experiência  
MariaPrivação de contatos amorososNa presença de comportamentos afetivos de JoséMaria retribui os afetosSatisfação da condição de privaçãoMaria cria expectativas de uma relação futura.

Vejamos que não há nada de errado no comportamento de nenhum deles, afinal, cada um tem se comportado de acordo com a sua operação motivacional, a questão, é que a curto prazo essa relação será benéfica a ambos, mas a médio/longo prazo, um deles, não terá a sua necessidade suprida.

Mas como vamos saber qual é a operação motivacional de cada pessoa com quem vamos nos relacionar?

Penso que, antes de saber a do outro, é importante que você tenha consciência de qual é a sua, do que você busca, quais são os seus objetivos e, aí sim, você poderá avaliar se o outro conseguirá suprir suas necessidades ou não.

Ser transparente sobre seus interesses é essencial dentro de qualquer relação, seja ela amorosa ou não, não existe nada de errado em querer estar num relacionamento amoroso, assim como, está tudo bem querer apenas conhecer novas pessoas, desde que isso fique claro para ambos. Se, ao conhecerem-se, ambos não explicitarem o que estão buscando, o relacionamento pode ser frustrante para ambos. Ambos serão vítimas do mesmo golpe: a comunicação imprecisa.


querer não é antecedente. A privação é a OE ( e o querer é o sentimento correlato a essa OM)

Aproveitar a vida não pode ser uma OM. Pode ser um efeito da contingência, mas não é uma alteração ambiental momentânea que evoca comportamento

querer nunca é um antecedente

O interessante aqui é que o contexto é o mesmo, as respostas são as mesmas, mas com função diversa

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O que um sapo pode te ensinar sobre relacionamento abusivo?

por Bruna C. Pavani

De acordo com Barreto (2015), um relacionamento é abusivo quando há excesso de poder e controle entre uma das partes. Os sinais de abuso iniciam de forma sutil e podem avançar gradualmente, podendo chegar à violência física ou psicológica, causando sofrimento e trazendo prejuízos à qualidade de vida, saúde mental e física da vítima.

Apesar de ter tido maior destaque na mídia nos últimos tempos – principalmente por conta do aumento dos casos na pandemia-, ninguém está livre de entrar em um relacionamento abusivo.

Em 2006, foi instituída a Lei maria da Penha (11340/06) cuja principal função é coibir, prevenir e erradicar a violência contra a mulher. Mas é importante ressaltar que relações abusivas independem de gêneros.

Quando pensamos que um relacionamento abusivo começa de forma sutil, sempre gosto de lembrar da metáfora do sapo e da água fervente:

‘’Se você puser um sapo numa panela, enchê-la com água e colocar no fogo, vai perceber que o sapo se ajusta à temperatura e permanece dentro, porém, quando a temperatura atinge um grau elevado, o sapo não consegue sair mais na panela e isso não é por conta da temperatura, mas sim, por estar cansado por ter se ajustado tantas vezes à temperatura da água. Agora, se colocarmos um sapo numa panela já com a água fervendo, de imediato o sapo pula fora.’’

Quando iniciamos um relacionamento, as situações abusivas não se iniciam com a “água fervendo”, caso contrário conseguiríamos pular fora de imediato. Mas o que seria essa água fervendo? Depende. Para cada individuo pode ser uma coisa diferente e depende da forma como cada pessoa discrimina as contingências em ação.

Quando iniciamos um relacionamento, geralmente, “a água está fria” e “pode ir se aquecendo aos poucos” e é isso que chamamos de forma sutil. O comportamento do abusador vai se refinando e a vítima vai reforçando seu comportamento sem muitas vezes ter consciência das consequências que isso pode lhe ocorrer. Vejamos um exemplo:

Imaginem um casal que iniciou um relacionamento recentemente: João e Maria.

Quadro 1. Retrato do relacionamento de João e Maria:

João diz a Maria que gostaria de saber mais sobre suas amizades, afinal, gostaria de conhecê-la melhor. Maria, feliz, conta para João sobre todos os seus amigos e diz que quer levá-lo para conhecê-los. Quando João conhece seus amigos, comenta com ela que fica desconfortável com a forma como Maurício a trata, pois parece que ele está apaixonado por ela. Com isso, Maria decide se afastar de Maurício para evitar desentendimentos com João.

Quando olhamos apenas para a forma (topografia) do comportamento de João, ele parece apenas demonstrar interesse em conhecer melhor a namorada e seus amigos, mas a função nem sempre corresponde à topografia. Neste caso, a função era ter controle sobre Maria e as pessoas com quem ela convivia. Maria reforça o comportamento de João ao se afastar de Mauricio.

Quadro 2. Retrato do relacionamento de João e Maria:

Após alguns meses, Maria comenta com João que terá um aniversário de uma amiga ao qual ela gostaria muito de ir, mas que será apenas para garotas e que ele não seria convidado, João fica emburrado e fica sem conversar com Maria por um tempo. Maria decide não ir ao aniversário.

Novamente, a topografia pode parecer diferente da função: A forma neste caso sugeria desconforto, mas a função é também de controle sobre o comportamento de Maria. Mais uma vez, Maria reforça o comportamento abusivo de Joao quando desiste de ir ao aniversário.

Quadro 3. Retrato do relacionamento de João e Maria:

João e Maria começaram a passar mais tempo juntos e se divertem quando estão juntos, o que é reforçador a ambos. Mas o final do ano chega e os pais de Maria combinam uma viagem com ela e antes de dizer a João, Maria já recusa pois sabe que João não iria gostar. Maria passa o final do ano com João e João varia o seu comportamento entre grosserias e carinhos.

Além dos prejuízos sociais que Maria tem por já não sair mais com seus amigos, Maria se priva de atividades prazerosas para ficar com Joao como forma de evitar discussões, porém, entra no ciclo do relacionamento abusivo:

É importante lembrar que nem sempre a relação abusiva é de fácil identificação e isso se dá por conta da variabilidade de comportamentos que podem ser emitidos dentro de um relacionamento, assim como variam as funções dos comportamentos emitidos. Mas, existem alguns comportamentos que estão sempre presentes dentro de relacionamentos abusivos, como: Controle, ciúmes e isolamento social e é importante nós, como psicoterapeutas ficarmos alertas a estes sinais.

Barretto, R.S. (2015) Psicóloga explica relacionamento abusivos: o que é e como sair dessa situação. Entrevista. UNESP, São Paulo. Recuperado de: http://reporterunesp.jor.br/2015/08/20/psicologa-explica-relacionamentos-abusivos-oque-e-e-como-lidar-com-essa-situacao/

Barretto, R.S. (2015) Psicóloga explica relacionamento abusivos: o que é e como sair dessa situação. Entrevista. UNESP, São Paulo. Acesso em: http://reporterunesp.jor.br/2015/08/20/psicologa-explica-relacionamentos-abusivos-oque-e-e-como-lidar-com-essa-situacao/

WALKER, Lenore. The battered woman. New York: Harper and How, 1979.

_____. LEI MARIA DA PENHALei N. °11.340, de 7 de Agosto de 2006

Bruna Catarina Pavani – @psicobrupavani

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COMO FAÇO PARA DEIXAR DE SENTIR?

por Bruna Catarina Pavani

No último texto sobre Frustração, comentei que falaria sobre como aceitar melhor o que sentimos e é sobre isso que vamos falar hoje.

Diante do número crescente de mortes, a COVID-19 tem causado outra pandemia: a do medo e ansiedade. A COVID-19 mudou a forma como nos comportamos, como nos relacionamos, como fazemos planos.

De início imaginamos que seriam apenas 15 dias em casa e estes 15 dias viraram 1 ano. E de que forma isso nos afeta?

Nos tornamos pessoas mais ansiosas, menos tolerantes a frustrações, mais estressadas, com dificuldades para dormir, com alterações no apetite etc.

Ignorar o que sentimos só piora a situação. A melhor forma de lidar com isso é nos acolhendo. Mas será que dá para fazer isso?

Crescemos em uma sociedade onde ficar triste, magoado, com raiva, irritado é visto como algo ruim. Quando isso acontece, logo vem alguém dizer: ‘’mas a sua vida é tão boa e você está aí triste’’, invalidando seus sentimentos. Nomeamos isso de: positividade tóxica, mas pera aí, alguém aqui consegue controlar o que sente?

Se eu falar para vocês:

 ‘Não pensem em um bolo de chocolate com recheio de prestígio’

Provavelmente, a primeira coisa que vocês pensaram, foi num bolo de chocolate com recheio de prestígio e por que vocês não controlaram isso? Porque simplesmente não dá, simplesmente não depende apenas de você. E é a mesma coisa dos sentimentos…

Hayes e Pistorello (2015) dizem:

‘’Tendemos a formular regra de não pensar (ou sentir, ou lembrar) no evento aversivo, mas na própria regra: “não vou pensar em x”; o “x” está presente e transformará a aversividade do evento para a palavra, tornando aquilo que se quer evitar, presente. E por esta razão que o controle dos eventos encobertos não funciona efetivamente, pois não se trata de uma pedra que se esconde num lugar distante e não se vê mais; o comportamento verbal faz da simples pedra aquela que sempre volta no meio do caminho.’’ (p.24)

Somos ensinados e tentar evitar tudo o que é considerado negativo: pensamentos ou sentimentos. E eu concordo que é desgostoso sentir raiva, tristeza, angústia, frustração etc., porém, esses sentimentos também são importantes e precisamos avaliar em que situações estamos nos sentindo assim…

Hayles e Pistorello (2015) mencionam dois motivos pelos quais as pessoas tentam ter controle sobre os comportamentos encobertos:

  • Eles costumam funcionar bem nos eventos abertos
  • O controle funciona a curto prazo, gerando assim, um reforço negativo significativo.

Ou seja, nossa própria cultura nos ensina que, se ignorarmos o que estamos sentindo, uma hora passa, mas a verdade é que não passa.

Quando você passa aceitar que está tudo bem se sentir dessa forma, porque condiz com a situação, você percebe que da mesma forma que o sentimento vem, ele vai embora… Quanto mais você tenta lutar para não se sentir de determinada forma, mais você vai se sentir.

Uma dica que dou é: Converse com teus sentimentos, avalie o porquê você está se sentindo dessa forma (avalie os antecedentes), perceba se esse sentimento condiz com a situação e diga para si mesmo ‘está tudo bem eu me sentir dessa forma, eu sei que logo vai passar’.

Hayes, S.C. e Pistorello, J. (2015). Introdução a Terapia de Aceitação e Compromisso. Belo Horizonte/MG: Artesã.

Bruna Catarina Pavani – @psicobrupavani

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Psicólogo: O que você faz para evitar a solidão profissional?

Autor: Comunidade DíadeLab*

Muitos terapeutas encaram a profissão como uma jornada muito solitária. Para estes, boa parte do dia a dia é focada na relação profissional, paciente/cliente e na jornada de atendimentos, com pouca oportunidade de interações sociais fora desse contexto. Isso parece algo comum ao seu cotidiano? Pois saiba que realizamos uma enquete entre psicólogos e, 79% dos 34 respondentes se dizem solitários na profissão (parece bastante, você não acha?). 

Às vezes faz muita falta uma rede de apoio! Precisamos falar sobre nossos casos, discutir, desabafar e ter supervisão mesmo que informal entre colegas. E, para evitar a solidão no dia a dia de trabalho, é necessário buscar contato com os pares ativamente. Seja por meio de grupos de estudos ou interagindo nas redes sociais, o importante é criar oportunidades de interação. Fazer psicoterapia, supervisão ou intervisão também está entre as boas estratégias de interação social, assim como compartilhar as angústias sobre o tema com outros profissionais.

Segundo os membros da comunidade que responderam à nossa enquete, outra forma de driblar a solidão é participar de eventos, acompanhar lives e outros recursos disponíveis na rede, além de cursos e atividades nas quais possa  interagir com alunos e professores – durante e após os encontros. Não podemos esquecer também das sugestões de prática de atividade física e de, sempre que der certo, sair para tomar um café com um amigo entre um atendimento e outro.

Especialmente nesse período de Pandemia, em que fomos privados de contato com boa parte de nossa rede de apoio, o auto-cuidado e a criação de uma rotina enriquecida podem ser essenciais para preservar nossa saúde mental. Nesse vídeo, Denis Zamignani analisa as contingências às quais nós, terapeutas, estamos submetidos e propõe algumas estratégias para auto-cuidado. Não à toa, o título é “Sabe lá o que é não ter e ter que ter para dar”.  

Se você está entre os que se sentem desacompanhados, teça, entrelace, desenvolva sua rede de apoio junto com a gente. A Díade|Lab é uma comunidade digital de analistas do comportamento. Sua contribuição pode tornar essa comunidade uma fonte cada vez mais rica de interações acolhedoras e reforçadoras. Conte pra gente o que você espera de uma comunidade de analistas do comportamento e de terapeutas. Dê sugestões, proponha atividades, organize grupos de estudo e a gente vai fazer o possível para fazer a sua ideia se transformar em realidade. Vamos fazer isso juntos?

*Esse texto foi escrito coletivamente pelos membros da DíadeLab com a compilação das respostas à enquete do movimento ‘Solidão Profissional’ no Instagram da @diadelab

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E o que fazer com a esquiva de se relacionar novamente?

Bruna C Pavani

Quando acabamos de sair de um relacionamento amoroso, precisamos lidar com o luto do término, independente se é um relacionamento saudável ou não.

Descrevendo o término de uma forma comportamental: é quando deixamos de entrar em contato com reforçadores que o outro nos fornecia e começamos entrar em contato com sentimentos aversivos como raiva, baixa autoestima, saudade, tristeza, solidão, que são consequências do próprio término.

É como dar um doce a uma criança e depois de um tempo tirar esse doce e falar para essa criança lidar com isso.

 Você já conheceu a parte boa de uma relação, agora ter que conhecer a parte desagradável, e para algumas pessoas, é aversivo demais, ao ponto de se esquivarem de futuras relações. E com isso, começamos com um novo conceito: Esquiva.

De acordo com Sidman (1989/2009), esquiva é uma das formas de reforçamento negativo – sendo a outra forma, fuga – onde podemos considerá-la antecipatória, por exemplo: não esperamos levar uma bronca do chefe para corrigirmos algo que já vimos que está errado, nós vamos corrigindo antes mesmo da bronca aparecer, ou, evitamos ficar parados na rua sem gasolina, ao invés disso, quando vemos que está acabando, tendemos a abastecer.

É notório o quanto a esquiva é essencial para a nossa sobrevivência, né?

Porém, uma pessoa que possui um comportamento de esquiva bem refinado, pode ter prejuízos. Sidman (1989/2009) traz algumas desvantagens do comportamento de esquiva:

  • Empobrecimento do repertório comportamental, já que, o indivíduo não se expõe a contingências para averiguar se passará por uma situação semelhante a anterior.
  • Contingências de esquiva são coercitivas e se caracterizam pela presença de fortes respostas emocionais como raiva, tensão, medo e ansiedade.

Trazendo isso para o âmbito amoroso e para uma pessoa que possui um comportamento refinado de esquiva, vamos pensar em possíveis prejuízos:

  • Essa pessoa possivelmente deixará de conhecer novas pessoas com receio de sofrer novamente;
  • Essa pessoa não irá se expor a eventos sociais, onde tem possibilidade de entrar em contato com novas pessoas;
  • Essa pessoa deixará de vivenciar bons momentos por receio de vivenciar os momentos desgostosos também

Como psicoterapeutas comportamentais, é importante entendermos o que mantém esse comportamento em nosso cliente e concomitantemente, ir promovendo a aproximações de eventos aversivos de uma forma que o cliente consiga lidar, desenvolvendo assim, habilidades sociais necessárias para lidar com a situação. Sidman, M. (1989/2009). Coerção e suas implicações. Trad. Maria Amália Andery & Tereza Maria Sério. Campinas: Livro Pleno. P.135-176

Bruna Catarina Pavani – @psicobrupavani

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O processo comportamental da escrita

“Não tenho tempo para escrever”. “Todos sabem escrever, menos eu”. “Quando lerem o que escrevi, todos saberão que eu sou uma farsa”. Esses são alguns dos pensamentos compartilhados entre pesquisadores e pesquisadoras, das mais distintas áreas do conhecimento, perante a temida página em branco sempre a lembrá-los daquilo que por mais um dia não fizeram com conforto e satisfação: escrever.

(O Bloqueio da Escrita Acadêmica: caminhos para escrever com conforto e sentido. Robson Cruz, 2020, p. 9)

Eu não sei o quanto de vocês podem achar pertinente um enfoque maior sobre a escrita, mas para mim, escritor acadêmico e literário, demorei bastante para perceber a profundidade daquilo que escolhi como ofício a ser realizado para o restante de minha vida. Foi preciso que o escrever me trouxesse um sofrimento intenso, crises de ansiedade encarando a tela branca do word, tirasse meu sono de frustração, para que eu começasse a encarar como um problema sério e levar para a terapia. Lá, em movimento clínico, percebi que colocar rabiscos em papéis ou ver a projeção de palavras no computador era apenas uma parte de um processo maior e complexo.

Infelizmente, não estou apelando para meu lado exagerado de escritor, ao falar que a escrita está acompanhada de sofrer. Cruz (2018; 2020), Silva (2018) e Skinner (1957)   nos alertam para uma série de contingências aversivas associadas ao escrever, em que sentimentos de culpa, tristeza, ansiedade aparecem com mais frequência do que as próprias palavras. A razão primeira é até fácil de imaginar: nós escrevemos para ser julgados, seja por um orientador, editor de revista, leitor ou seguidor no Instagram. Para piorar a nossa situação, observa-se uma baixa fonte de reforçadores, como a falta de prestígio e retorno financeiro. Por exemplo, nos Estados Unidos, somente 21% das pessoas que trabalham com a escrita conseguem viver apenas com a renda obtida pelos direitos autorais (Watson, 2020). E para dar a cereja reluzente sobre o bolo, desde o século XIX muitas noções romantizadas, reproduzidas culturalmente, enfeitam e delineiam padrões inverossímeis com a realidade — o que poderia nos explicar os sentimentos de culpa que aparecem.  O pior é que a academia parece não estar tão atenta e engajada para a solução dessas questões (Cruz, 2018; 2020).

Talvez neste momento alguns episódios podem estar vindo à cabeça com desconfortos sentidos ao escrever. E, assim como eu, pode ser que um questionamento também esteja começando a martelar em sua cabeça, como martelou na minha: ok, então o que diabos é a escrita, afinal?

Em meus atendimentos, costumo usar uma metáfora de que a escrita é como um rio. Haverá momentos em que obstáculos aparecerão para impedir o seu fluxo, em outros momentos, afluentes podem fazer com que ele aumente e transborde. É verdade, contudo, que um grande fluxo nem sempre significa algo saudável, já que esse rio pode causar inundações, mas ninguém de fato gosta quando está seco.

Traduzindo para uma linguagem comportamental, a escrita é um comportamento complexo, de parte privada e parte pública, cujas variáveis poderão dificultar ou facilitar a sua frequência. Como todo padrão aprendido, a história individual e cultural, a forma com qual o indivíduo se relacionou com a escrita ou contextos que a envolveram são capazes de afetar num nível de transformar uma atividade simples para uns, algo extremamente penoso para outros. Muitas vezes, esses desconfortos e sofrimentos sentidos são tão intensos que geram um movimento de esquiva acentuado, prejudicando projetos de vida, como observado por Daily e Miller (1975; 1983), em que pessoas com alta taxa de ansiedade envolvida com a escrita,  passaram a evitar disciplinas ou cargos profissionais que de alguma maneira trabalhem com produções escritas. A este fenômeno foi dado o nome de “Apprehensive Writer”.

Veja que em nenhum momento está se falando de preguiça, falta de empenho — muito menos falta de um dom! —, mas de uma condição comportamental que, pelo menos desde 1957, em Verbal Behavior, Skinner já nos sinalizava uma potencialidade de sofrimento envolvido. Especialmente a Academia deveria estar preocupada com isso, não somente porque enquanto disciplina científica responsável por tais fenômenos, como, ao meu ver,  essa barreira está afetando nossas produções acadêmicas, nossas pesquisas e publicações, tal qual um déficit basilar. Afinal, não é a ciência uma utilização específica da linguagem? (Skinner, 1957) Se precisamos escrever para descrever e estudar nossos objetos de estudos, o que acontece se cientistas não estão escrevendo?

Aos professores e orientadores que estiverem me lendo, quantas vezes vocês não viram uma aluna ou aluno desistir, apesar de evidente o quanto conhecia e o quanto tinha para contribuir? Quantas vezes vocês mesmos não pensaram em desistir por mais que soubesse exatamente o que queria escrever? Quantos cientistas não estamos perdendo?

Então, se escrever pode ser causa para muitos sofrimentos — como em casos de condições intensas, tal qual Apprehensive Writer —, por que não abordamos isso com mais ênfase? O quanto estaríamos preparados, como profissionais, para atender clientes com tais demandas? Será que apenas uma dessensibilização sistemática seria o suficiente para lidar com essas altas taxas de ansiedade em que indivíduos têm mudado sua vida inteira afim de evitar a escrita? E quanto a nós mesmos, escritores, quais práticas que realizamos nos ajudam ou atrapalham?

É com a tentativa de ajudar outros escritores, acadêmicos ou literários, a não passar pelo o que passei, que dou início a esta série de textos sobre o processo comportamental da escrita. Espero ter conseguido sua atenção e curiosidade até aqui, que minhas palavras sobre a própria dificuldade de escrever as palavras, tenham colocado uma pedrinha em nosso sapato analítico-comportamental. Para o próximo encontro, gostaria de lançar uma proposta: tente lembrar das vezes em que tentou escrever e sentiu dificuldades, o que pensava? O que sentia? Qual era o contexto? Estas perguntas podem trazer certas reações emocionais aversivas, então tome seu tempo para revisitar essas memórias. No próximo texto iremos abordar o terrível e famigerado Bloqueio de Escrita, e olhar para nossa história com o escrever poderá ser uma bússola muito útil nessa jornada.

Até lá, fiquem bem e em segurança!

Referências:

Cruz, R. N. (2018). Becker e o silêncio sobre a escrita na pós-graduação: soluções antigas para o cenário Brasileiro atual?. Psicologia & Sociedade, 30.

Cruz, R. N. (2020). O Bloqueio da Escrita Acadêmica: caminhos para escrever com conforto e sentido. Belo Horizonte: Artesã.

Daly, J. A., & Miller, M. D. (1975). The empirical development of an instrument to measure writing apprehension. Research in the Teaching of English, 9(3), 242-249.

Daly, J. A., & Wilson, D. A. (1983). Writing apprehension, self-esteem, and personality. Research in the Teaching of English, 327-341.

Watson, A. (2020, April 24). Number of writers and authors in the United States from 2011 to 2019. Statista.

Silvia, P. J. (2018). How to write a lot: A practical guide to productive academic writing. American Psychological Association.   Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. New York: Appleton-Century- Crofts.

Jacinto Junior – Psicólogo formado pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR – 2020). Escritor de Literatura e Co-Fundador do coletivo de Escritoras e Escritores Nordestinos: Oxe LGBT NE. Atua com processos clínicos e com atendimentos focados para a escrita.

Onde encontrar:

Instagram: @autorjacinto/ @projetoparnaso/ @oxelgbtne

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Além do básico

por Lidianne Queiroz

Você se preparou, estudou, fez investimento em um espaço (virtual ou presencial) para atender. Após algum tempo, as primeiras clientes apareceram e tudo está acontecendo conforme você tinha planejado. Perfeito, agora me conta: Você realmente está sendo a melhor terapeuta para a sua cliente? Te pergunto isso porque, todos os passos que você realizou antes de começar a atender, me mostram que você realmente quer se orgulhar do que faz e gerar mudança na vida das pessoas que você atende.

E aqui vai o primeiro segredinho, nem só de conhecimento vive uma boa terapeuta. Tudo o que você faz ou não faz em relação à sua cliente, diz pra ela o quanto você está comprometida em conduzi-la a atravessar a ponte em direção a uma vida valorosa. Então, um detalhe que certamente não passa despercebido é a sua pontualidade. Ser pontual comunica para a sua cliente que você reservou um horário adequado para que ela seja atendida, que você se importa com o tempo dela e que está ali exclusivamente para ela. Organize sua agenda de atendimentos de modo que os horários tenham a menor sobreposição possível. Além da pontualidade um outro aspecto relevante é a transmissão da mensagem de que a cliente se encontra em um espaço seguro e sigiloso, especialmente se você está realizando atendimento virtual.

A segunda mensagem que você precisa deixar clara para a sua cliente é que você trabalha em concordância com o nosso Código de Ética e que vai muito além da confidencialidade da relação terapeuta-cliente. Deixe claro que você trabalha respeitando e promovendo a liberdade dela em escolher e tomar as próprias decisões. Mostre que o foco do seu trabalho é na promoção da saúde e na qualidade de vida dela. Se engaje em ações que reflitam (na sua clínica) o seu comprometimento no exercício da responsabilidade social no enfrentamento das injustiças e desigualdades. Esteja comprometida com a tarefa de universalizar as informações sobre o funcionamento do trabalho de uma terapeuta para que mais pessoas possam ter acesso ao serviço de psicologia. Divulgue amplamente a mensagem que você não compactua com contextos de opressão, exploração e violência. Esteja atenta à realidade política, social e econômica do país onde a sua cliente reside, é sua função analisar e compreender o contexto em que ela está inserida para ampliar a sua capacidade de suporte. Tenha sempre em mente que o seu aprimoramento contínuo é fundamental para que a qualidade do seu serviço seja mantida.

Outro tópico muito relevante é a documentação que diz respeito ao seu atendimento. Devem permanecer em constante atualização o prontuário e o registro de sessões da sua cliente. É corriqueiro que estes documentos sejam negligenciados ou até mesmo esquecidos. Entretanto, além de estar em conformidade com o Conselho de Psicologia, ter os registros atualizados te ajuda a manter a clareza sobre o caso que você está atendendo e sobre as estratégias e ferramentas que você está utilizando. Estes dois aspectos te ajudarão a não perder o foco no seu atendimento, possibilitando que você redirecione (caso seja necessário) a sua condução sobre o caso de maneira mais ágil. Uma consequência que é frequentemente observada em terapeutas que mantém seus registros atualizados é a disposição em se manter comprometida com a cliente. Isso é importante porque após um tempo de atendimento ambas podem sentir-se desmotivadas. E você pode pensar que não está fazendo um bom trabalho ou que não consegue “ajudar” a sua cliente. E tá tudo bem pensar assim, vez ou outra analisamos nosso desempenho e pode ser que apareçam resultados desagradáveis. O problema reside na falta de dados que possam refutar ou corroborar os seus pensamentos. Sem registros atualizados fica praticamente impossível saber se você realmente precisa rever sua condução do caso ou se está se auto sabotando. Além dos documentos atualizados, receber supervisão vai te proporcionar mais segurança e tranquilidade na sua atuação profissional.

E para finalizar, eu oriento que você busque desenvolver ou aprimorar suas habilidades de assertividade e de gestão de carreira. Na maioria das situações você é a “faz tudo” da sua clínica, e para prevenir que a sua empresa seja impedida de operar é fundamental saber lidar com questões administrativas e financeiras com a sua cliente. Deixar claro desde o começo e relembrar sempre que houver necessidade, os compromissos dela com horário, com o pagamento e com o período em que ela pretende tirar férias. Não aprendemos durante a graduação que iremos trabalhar com venda de serviços, eu sei que parece meio óbvio, mas não é o que eu tenho encontrado em minha prática como supervisora e consultora. Muitas terapeutas que chegam até mim apresentam dificuldade de falar sobre dinheiro, em precificar a sua sessão e cobrar de acordo com essa precificação. A consequência para comportamentos como estes é o acúmulo de clientes que pagam valores muito abaixo do necessário para manter a saúde financeira do seu negócio.

Apresentei aqui alguns pontos que entendo como tão relevantes quanto escolher um espaço de atendimento e decidir atuar como terapeuta clínica. A profissão de psicologia precisa ser encarada pelas psicólogas e pelas clientes como um negócio e como tal deve estar sujeita a todos os aspectos que envolvem o funcionamento saudável dessa firma. Nós, as terapeutas, podemos ser acolhedoras, gentis, compreensivas e mesmo assim atuar como empresárias da nossa clínica quando necessário.

Nota da autora: se você quer saber mais sobre como gerenciar seu consultório, me chama pra conversar no Instagram @liddiqueiroz.

Referências

Abreu-Rodrigues, J. & Ribeiro, M. R. (2005). Análise do comportamento: pesquisa, teoria e aplicação. Porto Alegre, RS: Artmed.

Moreira, M.B. & Medeiros, C. A (2007). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed

Aureliano, L., & Pessoa, C. V. B. B. (2017). Análise de Sistemas Comportamentais: uma proposta de análise e intervenção nas organizações. In Vilas Boas, D. L. O.,

Borba, A., Ramos, C. C., & Ramos, T. D. (2017). O surgimento da Análise do Comportamento Aplicada às Organizações. In Vilas Boas, D. L. O., Cassas, F., Gusso, H. L. (Orgs.). Comportamento em Foco (Vol. 5, Cap. 1, pp. 13-27). São Paulo: Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental. 

Gusso, G. L. (2017). Desafios ao Analista do Comportamento no Campo Organizacional Brasileiro. In Vilas Boas, D. L. O., Cassas, F., Gusso, H. L. (Orgs.). Comportamento em Foco (Vol. 5, Cap. 6, pp. 77-86). São Paulo: Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental.  Skinner, B. F. (2003). Ciência e comportamento humano. (Trad. João Carlos Todorov) São Paulo: Martins Fontes. (Original publicado em 1953).

Dra. em Teoria e Pesquisa do Comportamento, Empreendedora, Psicóloga, Terapeuta Contextual pelo Instituto Florescer, Consultora em Gestão Comportamental pela Realize CST, Supervisora Sênior de Equipe pela Flamboiã ABA, Consultora em plataforma digital para saúde mental

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É possível ensinar resiliência?

por Tatiana Cohab Khafif

Nas últimas décadas, a renomada pesquisadora da Universidade de Stanford, Angela Duckworth, tem buscado compreender o que faz com que indivíduos com níveis similares de inteligência, sejam capazes de realizar maiores ou menores conquistas em suas vidas. Duckworth notou que, apesar de certas características serem cruciais para o sucesso em determinadas profissões (como por exemplo a extroversão, para vendas), indivíduos bem sucedidos tem algo em comum: eles possuem grit (Duckworth, 2007). O termo grit, do inglês, é definido como a capacidade trabalhar com perseverança e paixão visando objetivos a longo prazo; assim, ter grit envolve ser capaz de enfrentar os desafios e percalços do caminho, mantendo o esforço e o interesse constantes, apesar dos fracassos e adversidades (Duckworth, 2007).

Apesar de certamente distinta, a definição de grit nos faz lembrar, em muitos aspectos, a de resiliência, tema de grande enfoque no contexto clínico e do desenvolvimento. O que faz com que certos indivíduos prevaleçam frente a adversidades, enquanto outros sucumbem a eles? É possível ensinar resiliência e grit, ou devemos nos conformar com o que nos é dado?

            Estudos mostram que apesar de sofrer certa influência genética (Rimfield, 2016), grit e resiliência podem ser alterados e impactados por fatores ambientais (Boneva, 2019). Quando falamos de ambiente, sabemos que este pode oferecer fatores de risco e fatores protetores. Os fatores ambientais protetores, tem como função o amortecimento do impacto dos fatores de risco, os quais muitas vezes estão fora do nosso controle (Zamignani, 2017).

            A autonomia, o autocontrole, a consciência interpessoal, a empatia, habilidade de soluções de problema, enfrentamento e planejamento, são essenciais para o desenvolvimento de um indivíduo resiliente (Zamignani, 2017).  Mas como nós, pais, psicólogos e educadores podemos contribuir para o desenvolvimento de um repertório adequado para o desenvolvimento de grit e da resiliência?

            Para além dos cuidados físicos e da estimulação adequada, é importante que haja um enfoque no desenvolvimento da linguagem e da expressão emocional, que permitirá que o indivíduo seja capaz de fazer escolhas, dialogar, argumentar em prol de suas necessidades, assim como expressar-se de forma adequada (Zamignani, 2017). Para tal, é necessário que haja uma consistência no afeto e nos limites dados ao indivíduo. É muito comum que haja confusão entre uma implementação clara e sólida de limites, com regras consistentes e instruções claras, e a punição, onde é lançada mão de ameaças e de um não constante para visando a obediência e o respeito às regras.

A psicóloga clínica e pesquisadora, Diana Baumrind propôs, na década de 1960, um modelo teórico sobre tipos de controle parental, que pode ser utilizado para pautar diferentes relações de cuidado. Dentro do modelo proposto por Baumrind, quatro principais estilos parentais (ou maneiras de educar) são analisados, sendo eles, os estilos autoritativo, autoritário, permissivo e o negligente. Dentro do estilo autoritativo, estariam os pais com alta exigência, e ao mesmo tempo alta responsividade (apoio emocional, atenção para as necessidades do indivíduo, orientação); dentro do autoritário, estariam os pais com alta exigência, porém baixa responsividade; no permissivo, teríamos cuidadores com baixa exigência e alta responsividade; e no negligente, pais com baixa exigência e baixa responsividade (Baumrind, 1966).

É claro que, quanto antes forem implementados estes cuidados, mais fácil será o desenvolvimento de características favoráveis ao grit e a resiliência; mas isso não significa que não podemos olhar para estes aspectos mais adiante na vida, em diferentes contextos. Como psicólogos clínicos, cuidadores e educadores, temos a oportunidade de olhar para os indivíduos que nos elegem para guiá-los em seus processos únicos e tão individuais de auto-conhecimento, sob uma lente de cuidado e de estabelecimento de limites, que lhes dê a segurança, o amparo, e ao mesmo tempo a autonomia e autoconfiança para se desenvolverem como indivíduos flexíveis e resilientes.

REFERÊNCIAS:

Alan, S., Boneva, T., & Ertac, S. (2019). Ever failed, try again, succeed better: Results from a randomized educational intervention on grit. Quarterly Journal of Economics, 134, 1121–1162.

Baumrind, D. (1966). Effects of authoritative control on child behavior. Child Development, 37, 887-907.

Duckworth, A.L.; Peterson, C.; Matthews, M.D.; Kelly, D. R. (2007). Grit: perseverance and passion for long-term goals. Journal of personality and social psychology, 92(6), 1087. DOI: https://doi.org/10.1037/0022-3514.92.6.1087

Park, D. T.; Sukayama, E.; Yu, A.; Duckworth, A.L. (2020). The development of grit and growth mindset during adolescence. Journal of Experimental Child Psychology, 198. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jecp.2020.104889

Rimfeld, K., Kovas, Y., Dale, P. S., & Plomin, R. (2016). True grit and genetics: Predicting academic achievement from personality. Journal of Personality and Social Psychology, 111, 780–789. DOI: https://doi.org/10.1037/pspp0000089  Zamignani, D. R. (2017). Parentalização para a Resiliência. Video online. Youtube, 21 de Abril de 2017. Evolucio Capacitação Profissional. Conteúdo online, acessado em 10 de maio de 2021: https://www.youtube.com/channel/UCqGyJ4IppEO7adcFf3fJMng

Psicóloga graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2018). Mestranda (término Junho 2021), psicóloga colaboradora e pesquisadora do Ambulatório de Transtorno do Humor Bipolar (PROMAN) no IPq HC-FMUSP. Analista do comportamento, atualmente cursando especialização em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) (FATEC-PR, término 2022). Atua clinicamente com crianças, adolescentes e adultos, e tem experiência com transtornos do humor e transtornos de ansiedade.

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Tabu: consumo de substâncias psicoativas – com Pedro Quaresma

por Canal dos Berrekas

Fruto do reforçador de vocês, nasce uma nova parceria BerrekasCAST feat DíadeLab. Apertem os cintos que já começaremos com os dois pés na porta com um tema que veio para romper a “quarta parede”. O nosso convidado de hoje é o Pedro Quaresma, nosso comentarista oficial diretamente da DíadeLab, que veio para falar sobre os estudos envolvendo abuso de substâncias, uso medicinal de substâncias ainda consideradas ilegais em nosso país e as consequências dessa prática. O gran finale será sobre Psicoterapia Assistida por Psicodélicos.

Se você procura conteúdos sobre Psicologia em geral com ênfase na Análise do Comportamento seu lugar é aqui. Aperte os cintos e aproveite a jornada oferecida pelos Berrekas em parceria com a DíadeLAB. Serão episódios recheados de bom humor, conhecimento científico, análise do comportamento e sugestões de toda a galera que curte escutar um podcast em qualquer hora do dia.

Sobre @canaldosberrekas

Canal criado por dois Psicólogos Comportamentais, com o intuito tanto de divulgar os trabalhos da Psicologia Comportamental quanto a Psicologia em geral e seu contato com as outras profissões. Obrigado e esperamos que gostem. Um abraço dos BERREKAS!!!

Luciano Martorelli Moreno CRP 06/149510 @psi.lucianomartorelli Lucas Vinicius Ferreira da Silva CRP 06/166176 @psi.lucasviniciusf