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Ainda esperamos por nossas Musas para começar a escrever?

Espero me recordar para sempre deste sonho.

Era uma noite escura, uma garota corria desesperada, lutando para manter o equilíbrio por entre uma estrada tortuosa. Atrás de si, uma besta horrenda rosnava em ao seu enlace. Por entre as árvores de caules negros, um cavalo se meteu em seu caminho, e a velha bruxa a tomou pelos pulsos, ajudando-a a fugir. No sacolejar da montaria, a velha explicava tudo para a garota sobre o que estava acontecendo e mais tarde, ao encontrarem seu tio e narrar toda a história, ele começa a escrever sobre os horrores trazidos por um artefato a uma afastada vila.

Durante todo o sonho, eu não fiz parte dele, quero dizer, toda a cena se desenrolava como se eu assistisse a um filme. Os personagens, já com nomes e funções dentro da narrativa eram mostrados, e o sonho terminava com o livro já sendo escrito. Eu me lembro da frase final, era algo como:

“E esta é uma história que narra muito bem o porque não se deve aceitar presentes de um estranho.”

Claro que utilizei este sonho para se tornar um romance que está em processo de criação. Essa não foi a primeira vez que fiz isso, nem mesmo a única. Nem mesmo eu sou o único a utilizar sonhos como fonte de inspiração. Harry Potter, romance que marcou uma geração inteira e tornou J. K. Rowling a primeira escritora de livro infantil milionária, teve sua ideia vinda de um sonho.

Quis começar destacando o sonho, porque, assim como a inspiração, este é um assunto que costuma estar envolvido certo misticismo e cujo interesse remonta a milênios atrás. Além de ser um resultado complexo de interações — bem, pela narração de meu sonho acima, acredito que seja sensato falar em muitas interações complexas envolvendo, principalmente, a história de vida individual e cultural. Essa associação, na verdade, é feita por Skinner (1957), mas já chegaremos lá.

Na Grécia antiga, a importância dada à inspiração foi tamanha que ela teve direito a um grupo de divindades: as Musas. Seres que inspiravam nos artistas as palavras certas em suas obras, abençoando-os em sua produção. Aliás, esta concepção era tão forte, que os gêneros possuíam uma marcação estrutural de invocar as Musas, ou outras divindades, para ajudá-los em sua empreitada artística, a qual se repete nas obras gregas Teogonia, Odisséia e Ilíada; romana, Eneida; portuguesa, Os Lusíadas e sobrevive até hoje, como em O amor de Apolo e Jacinto, em que o autor cearense mescla elementos da poesia épica com o cordel.

Eu poderia continuar a contar muitos outros rumores que circundam as diversas fontes de inspiração de escritores, porém quero, na verdade, falar sobre uma postura que parece perdurar desde os tempos de ouro da Grécia, se não antes: o de esperar a inspiração para começar a escrever.

Durante as eras, aprendemos a lidar com aquilo que entendemos por inspiração como sendo uma força motriz, por vezes única, de fazer o rio fluir. Uma pergunta rápida: quantas vezes você esperou pela inspiração para poder começar a escrever? E não me refiro unicamente a escritores literários, também já vi escritores acadêmicos reproduzindo o mesmo discurso quando questionados sobre o porquê de não escrever: “estou esperando a inspiração”, ou pelo menos: “estou esperando o momento perfeito”. Bem, sinto muito quebrar um pouco do romantismo, mas explicar a sua escrita através da inspiração, é a mesma coisa que falar que não escreve por um bloqueio. Voltamos àquele estado circular.

— Por que você está escrevendo mais?

— Porque eu estou inspirado!

— E como é que você sabe que está inspirado?

— Porque eu estou escrevendo mais!

Vamos lá, antes que desistam de mim por blasfemar contra a inspiração, afirmar que ela não produz a escrita, não é a mesma coisa que dizer que ela não existe.  Inspiração existe, sim, mas assim como o bloqueio de escrita, nós estamos falando de um estado — ativado por alguma razão ou razões — em que se observa uma maior facilidade para escrever, uma baixa no autojulgamento, uma maior fluidez e foco, e não de uma coisa que nos faz escrever.

Trazendo para a metáfora do rio, este é o momento em que afluentes estão favorecendo o seu rio da escrita, ou mesmo que não existem barreiras para represar suas palavras sedentas para sair. O que existe apenas é o horizonte inimaginável da escrita.

Eu sei, é bom se sentir assim. De certo modo, até viciante, não? O problema acontece quando nos relacionamos com a “Inspiração” como se ela fosse a única responsável por nos levar à escrita, pois, como em toda regra, o que se observa é uma maior insensibilidade ao seu contexto atual, podendo levar a padrões adoecidos (Hayes, Strosahl & Wilson, 2021). Ou seja, para começar e continuar sua escrita, alguém precisaria estar nesse ponto tido como ideal ou certo, caso contrário, ela poderia não ser boa, iria ser automatizada, sem emoção etc. Esse tipo de postura não difere tanto dos antigos à espera das divindades, das Musas: o protagonismo da escrita passa a não mais pertencer ao escritor, mas a esse outro, essa instância metafísica que nos anima, a inspiração.

Isso soa um pouco perigoso, porque nos faz adotar uma espécie de postura passiva diante da escrita. Inspiração é importante, sim, mas ela é apenas uma parte do processo, um aspecto motivacional o qual você deve usar a seu favor, e não ficar refém dele. 

Mas como a inspiração funciona? Seria possível fazermos algo para nos deixar mais abertos a esse estado?

Em minha experiência, seja como escritor ou psicólogo, ouvi diversos contextos que deram ideias sobre o que escrever a pessoas. Sonhos, matérias de jornais, conversas com amigos, uma paixão… Colocando-me um pouco aqui no texto, muitas de minhas ideias mesmo aparecem em sonhos, e desde que era mais jovem, é muito comum que o processo de criação de ideias ocorra enquanto eu ando! Aliás, uma das formas utilizadas por escritores para sair de um estado de bloqueio que mais foi citada na pesquisa de Ahmed (2019) foi andar.

Boice (1990), por sua vez, pode nos oferecer uma importante contribuição para esse estado que compreendemos como inspiração. O pesquisador, tendo como foco produções acadêmicas, reuniu um grupo de professores e arranjou uma série de contingências, atribuídas aos participantes aleatoriamente, dividindo-os em três grupos: o primeiro, em condição de abstinência, foi proibido de qualquer escrita não emergencial, imediata; para o segundo, em condição espontânea, agendaram-se 50 dias de escrita, mas os participantes só deveriam escrever quando se sentissem inspirados; e o terceiro, por sua vez, foi obrigado a escrever durante todos os 50 dias da pesquisa. Os resultados mostraram que o terceiro grupo não só escreveu consideravelmente mais em relação aos anteriores, como seus participantes também relataram ter ideias as quais consideravam mais criativas.

Anote esta dica: manter uma escrita constante, nem que seja por breves períodos, pode ser essencial para um estabelecimento de um hábito saudável. Mais à frente iremos conversar sobre isso. Por mais paradoxal que possa parecer, manter uma escrita constante pode ser uma variável importante para o surgimento de ideias criativas, como ocorre em estados de inspiração, e não o contrário como se pensa ou se costuma falar.

Skinner (1957), em um capítulo dedicado ao processo de autocorreção — processo que gostaria de retomar em textos futuros –, pontuou que estados de inspiração parecem estar associados com baixas nesse processo de edição. Assim como nos sonhos, não existem barreiras ou contingências punitivas de seu conteúdo, apenas um livre fluxo de informações, que guarda similaridade com a escrita automática (escrever livremente sem se autocorrigir, sem ponderar muito sobre as palavras a serem colocadas, deixando-as fluir). No caso, ele cita o exemplo do autor Stevenson, do célebre romance O Médico e o Monstro, cuja ideia para a obra também se originou em um sonho.

Como disse antes, o sonhar é apenas uma das diversas fontes de inspiração, isto é, desse estado motivacional que nos ajudaria a contribuir para a nossa escrita. Em minhas sessões, eu costumo pedir para que meus clientes estejam atentos a contextos que poderiam dar novas ideias, seja para a escrita literária, seja para a acadêmica. Por exemplo, um artigo que me deu muitas ideias foi o de Rose (2016), e sempre que o releio, parece que me vêm mais ideias para explorar em futuros trabalhos. Esta postura significa, principalmente, se deixar ouvir mais sem autojulgamento ou, principalmente quando for escrever, deixar que o rio flua sem barreiras.

Um benefício de pensar na inspiração como estado motivacional, é saber que ela na verdade é produto desses fatores, um efeito que adoramos e valoramos, em que coisas no mundo o inspiraram a ter aquela ideia, aquela fala, ou a estruturação de um conceito. Se a inspiração é produto de algo que fazemos, nossa postura não mais está passiva, mas sim ativa, protagonista, seja ao vermos uma notícia, encararmos uma memória ou lermos um artigo científico.

De todo modo, estar mais atento ao presente e ciente de seu processo de escrita, de um modo ativo e protagonista, é sobretudo um convite para procurar inspiração nos mais diversos recortes de sua vida! Observe seu mundo privado, seus pensamentos e sentimentos, ou mesmo olhe para o mundo externo, algum acontecimento peculiar, algum trabalho científico que leu, todos esses elementos podem ser a fagulha que estava procurando! Sempre anote suas ideias, sem receio ou julgamento — lembre que estamos falando de um processo aqui –, separe um espaço para se sentir livre para criar e retornar. Eu costumo fazer isso num arquivo de texto ou mesmo pelo celular, o importante é não perdê-las. Ideias são como sementes, antes de darem frutos, é necessário plantar, germinar e alimentar. Então, sim, mantenha suas sementes.

Inspirações não são eternas, ou seja, você, ou seu cliente, experimentará muitos estados de inspiração, mas todos eles terão seu início, meio e fim. Permanecendo com uma postura ativa, cultivando as práticas citadas acima, você poderá estar mais aberto e reconhecer a sua relação com a inspiração, tornando-se cada vez mais protagonista da própria escrita.

Referências Acadêmicas:

Ahmed, S. J. (2019). An Analysis of Writer’s Block: Causes, Characteristics, and Solutions.(Dissertação de Mestrado). University of North Florida, Jacksonville, FL. Disponível  em: https://digitalcommons.unf.edu/etd/903.

Boice, R; (1990). Professors as writers: A self-help guide to productive writing. Stillwater: New Forums Press.

de Rose, J. C. (2016). A Importância dos Respondentes e das Relações Simbólicas para uma Análise Comportamental da Cultura1. Acta Comportamentalia: Revista Latina de Análisis de Comportamiento, 24(2), 201-220. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/2745/274545739006/html/

Hayes, S. C., Strosahl, K. D. & Wilson, K. G. (2021). Terapia de Aceitação e Compromisso-: O Processo e a Prática da Mudança Consciente. Artmed Editora.

Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. New York: Appleton-Century- Crofts.

Referências Literárias:

Eneida – Virgílio

Harry Potter e a Pedra Filosofal – J. K. Rowling

Ilíada – Homero

O amor de Apolo e Jacinto – Mateus Costa

Odisseia – Homero

O Médico e o Monstro – Robert Louis Stevenson

Os Lusíadas – Luís de Camões

Teogonia – Hesíodo.

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Questões sociais

De que forma podemos viver nossas vidas para deixarmos um mundo melhor para as futuras gerações?

Felipe Lustosa Leite

Este é o primeiro de uma série de textos que estarei escrevendo para a Equipe DiadeLab, nos quais buscarei fazer reflexões sobre nosso papel enquanto analistas do comportamento para construir sociedades mais saudáveis e sustentáveis. Sei que a proposta é ambiciosa, mas não tenho a intenção de trazer verdades ou soluções definitivas. Meu objetivo é fazer com que os leitores parem, olhem para si mesmos, para como vivem suas vidas, para aquilo que entendem ser um(a) analista do comportamento, e explorem os limites e fronteiras de nossas possibilidades de ação. Espero que tenhamos uma jornada cheia de aventuras, pensamentos perturbadores e ideias para trazer mais sorrisos para este pálido ponto azul.

Mas enfim, então, o que significa viver uma vida a partir da qual deixamos de herança algumas coisas legais e construtivas para quem ainda habitará este planeta? Podemos ir para várias direções com essa discussão, desde argumentos espirituais a discussões sobre ética. No entanto, dada minha trajetória enquanto analista comportamental da cultura, meu percurso reflexivo se dará majoritariamente por esse campo de investigação e áreas tangentes, como sociologia, economia, antropologia, dentre outras. Para quem já me conhece, parece óbvio que parto de uma discussão da qual gosto bastante, e que foi lançada por um biólogo chamado Garret Hardin.

No clássico artigo The Tragedy of the Commons, Hardin (1968) discute um dilema resultante da ênfase prioritária no bem do indivíduo em detrimento do bem coletivo. Imagine que você e mais um grupo de vinte pessoas vivem em uma área rural e criam gado em um pasto coletivo. O pasto é coletivo, mas cada vaca é considerada propriedade privada. O pasto é o que chamamos de commons. Vocês tiram seu sustento do seu gado, que vive e se alimenta no pasto coletivo. Desse modo, o desenvolvimento saudável do seu gado depende do consumo de recursos coletivos (do pasto). No entanto, qualquer renda que você consiga extrair do seu gado é unicamente sua. Esse cenário implica em contingências sociais que operam do seguinte modo: (i) criar gado é uma atividade que vem a produzir consequências reforçadoras, acessadas pelo indivíduo; (ii) criar gado também leva a uma consequência aversiva, a redução de recursos do pasto, o que demanda custos com manutenção e cuidados; (iii) nota-se que, enquanto as consequências reforçadoras são desfrutadas pelo indivíduo, as aversivas são distribuídas pelo grupo. Bem, eu posso facilmente maximizar meus ganhos aumentando a quantidade de gado que crio e outros provavelmente me seguirão nesse caminho.

Mas, bem, não devemos perder de vista que quanto mais gado há no pasto, mais rápido ele se deteriora e, com isso, maiores são os custos para manutenção e cuidados. Aqui chegamos a uma clássica situação de esquemas concorrentes. Por um lado, se respondo de modo a maximizar minha criação de gado, eu produção mais lucro para mim, e sem muita demora, mas “pressionar essa barra” cria um problema que é compartilhado por todos. Eu levo os benefícios só para mim, mas divido as batatas quentes. Por outro lado, posso responder de modo a criar uma quantidade de gado mínimo para minha subsistência, de modo que dê fôlego para o pasto se renovar naturalmente, reduzindo assim a magnitude das consequências reforçadoras possíveis, mas também reduzindo o prejuízo coletivo. E aí, qual a escolha mais provável?

Tomando como base uma vasta literatura experimental, tanto analítico-comportamental como de outros campos, tudo indica que a escolha mais provável é direcionar suas energias para se tornar um “Rei do Gado” e não se preocupar muito com o destino do pasto, afinal, não tem outros que cuidarão dele também? Mas poucos notam um detalhe simples, brutalmente relevante, mas que parece estúpido quando falamos em voz alta. Uma vez que praticamente todos os participantes desse universo de pesquisa mencionado são crias das sociedades ocidentais modernas (ou de culturas influenciadas por valores amplamente desenvolvidos na Europa Ocidental), é natural que essas pessoas se enxerguem prioritariamente como um “eu”, e esse “eu” tem mais valor do que o “nós” para as pessoas criadas nesse modelo cultural. Opa… mas de onde vem isso?

Os valores derivados de sociedades ocidentais modernas – e que se espalharam pelo mundo – não são características “naturais” do ser humano. O homo sapiens é um animal cuja característica mais marcante é sua sociabilidade. Nossa capacidade de organização social talvez tenha sido o elemento mais marcante para o nosso sucesso evolutivo (cabe notar que nosso refinamento em nos organizarmos socialmente é o que deu espaço para o desenvolvimento da mais notória prática cultural humana, a linguagem). Somos seres absurdamente dependentes uns dos outros, mas nos enxergarmos como indivíduos autônomos, independentes, com pensamentos próprios, vontades próprias e donos do nosso próprio destino. No entanto, não devemos perder de vista que essa visão de homem é uma invenção cultural – uma invenção que está cobrando seu preço nos dias atuais.

No texto seguinte desta série irei expor como ocorreu a invenção do conceito de indivíduo moderno, de modo que se possa refletir de que maneira podemos nos ver no mundo de outro modo: como partes integrais de um todo social; como seres interdependentes uns dos outros; não como centros do universo, mas como grãos da poeira estelar que o compõe.