Categorias
Sem categoria

O golpe tá ai, cai realmente quem quer?

por Bruna Catarina Pavani

Atualmente muito se fala sobre golpe. E neste texto, entenderemos golpe como uma falha de comunicação entre uma ou ambas as partes sobre seus interesses amorosos.

Mas, antes de tudo, precisamos entender conceitualmente o que levaria uma pessoa a cair em um ‘’golpe’’.

Suponhamos que Maria está há um tempo sem se relacionar com ninguém e começa a sentir a necessidade de se relacionar novamente. Maria começa a se expor a situações em que tem a possibilidade de conhecer alguém (emite Sds para que seja reforçada positivamente) e em uma dessas exposições, Maria conhece José. Mas o que Maria não sabe (por não terem conversado), é que José está disponível apenas para conhecer novas pessoas, mas não para se envolver de uma forma mais profunda.

Tabela 1. Relacionamento de Maria e José:

 Operação MotivacionalAntecedenteRespostaConsequência
MariaPrivação de contatos amorososQuerer se relacionar[1]  Contextos em que há a oportunidade de interações sociais (reuniões presenciais, redes sociais, aplicativos, etc.)Se expor a situações que propiciem conhecer novas pessoas  Conhece JoséComeça a se relacionar com José Aproximar-se de José tem a função de suprir a privação de contato social
JoséAproveitar a vida [2]  Qualquer OM que evoque respostas de exploração e variação (a motivação de João o impele a experiências relacionadas a “aproveitar a vida“)Querer conhecer novas pessoas[3]  Contextos em que há a oportunidade de interações sociais (reuniões presenciais, redes sociais, aplicativos, etc.)Se expor a situações que propiciem conhecer novas pessoas  Conhece Maria e outras pessoasAproximar-se de Maria tem a função de suprir sua motivação para a exploração de novas experiências[4] 

Podemos pensar que, a operação motivadora (OM – aquela que, momentaneamente, altera a efetividade reforçadora de um estímulo) é diferente para cada pessoa e com isso, a função do relacionamento também será, levando a diferenças na forma com que irão lidar com ele.

Então, voltando ao caso de Maria e José, pensemos numa situação em que eles estão juntos e José é carinhoso com Maria, dá atenção a ela, demonstra interesse…. a forma como Maria interpretaria isso (e agiria), seria de acordo com a sua operação motivacional, vejamos a seguir:

Tabela 2. Relacionamento de Maria e José:

 Operação MotivacionalAntecedenteRespostaConsequência
JoséOM que evoque respostas de exploração e variação  Na presença de pessoas de seu interesse  José será atencioso, carinhoso, afetuoso Receber atençãoReceber afetoNova experiência  
MariaPrivação de contatos amorososNa presença de comportamentos afetivos de JoséMaria retribui os afetosSatisfação da condição de privaçãoMaria cria expectativas de uma relação futura.

Vejamos que não há nada de errado no comportamento de nenhum deles, afinal, cada um tem se comportado de acordo com a sua operação motivacional, a questão, é que a curto prazo essa relação será benéfica a ambos, mas a médio/longo prazo, um deles, não terá a sua necessidade suprida.

Mas como vamos saber qual é a operação motivacional de cada pessoa com quem vamos nos relacionar?

Penso que, antes de saber a do outro, é importante que você tenha consciência de qual é a sua, do que você busca, quais são os seus objetivos e, aí sim, você poderá avaliar se o outro conseguirá suprir suas necessidades ou não.

Ser transparente sobre seus interesses é essencial dentro de qualquer relação, seja ela amorosa ou não, não existe nada de errado em querer estar num relacionamento amoroso, assim como, está tudo bem querer apenas conhecer novas pessoas, desde que isso fique claro para ambos. Se, ao conhecerem-se, ambos não explicitarem o que estão buscando, o relacionamento pode ser frustrante para ambos. Ambos serão vítimas do mesmo golpe: a comunicação imprecisa.


querer não é antecedente. A privação é a OE ( e o querer é o sentimento correlato a essa OM)

Aproveitar a vida não pode ser uma OM. Pode ser um efeito da contingência, mas não é uma alteração ambiental momentânea que evoca comportamento

querer nunca é um antecedente

O interessante aqui é que o contexto é o mesmo, as respostas são as mesmas, mas com função diversa

Atualmente muito se fala sobre golpe. E neste texto, entenderemos golpe como uma falha de comunicação entre uma ou ambas as partes sobre seus interesses amorosos.

Mas, antes de tudo, precisamos entender conceitualmente o que levaria uma pessoa a cair em um ‘’golpe’’.

Suponhamos que Maria está há um tempo sem se relacionar com ninguém e começa a sentir a necessidade de se relacionar novamente. Maria começa a se expor a situações em que tem a possibilidade de conhecer alguém (emite Sds para que seja reforçada positivamente) e em uma dessas exposições, Maria conhece José. Mas o que Maria não sabe (por não terem conversado), é que José está disponível apenas para conhecer novas pessoas, mas não para se envolver de uma forma mais profunda.

Tabela 1. Relacionamento de Maria e José:

 Operação MotivacionalAntecedenteRespostaConsequência
MariaPrivação de contatos amorososQuerer se relacionar[1]  Contextos em que há a oportunidade de interações sociais (reuniões presenciais, redes sociais, aplicativos, etc.)Se expor a situações que propiciem conhecer novas pessoas  Conhece JoséComeça a se relacionar com José Aproximar-se de José tem a função de suprir a privação de contato social
JoséAproveitar a vida [2]  Qualquer OM que evoque respostas de exploração e variação (a motivação de João o impele a experiências relacionadas a “aproveitar a vida“)Querer conhecer novas pessoas[3]  Contextos em que há a oportunidade de interações sociais (reuniões presenciais, redes sociais, aplicativos, etc.)Se expor a situações que propiciem conhecer novas pessoas  Conhece Maria e outras pessoasAproximar-se de Maria tem a função de suprir sua motivação para a exploração de novas experiências[4] 

Podemos pensar que, a operação motivadora (OM – aquela que, momentaneamente, altera a efetividade reforçadora de um estímulo) é diferente para cada pessoa e com isso, a função do relacionamento também será, levando a diferenças na forma com que irão lidar com ele.

Então, voltando ao caso de Maria e José, pensemos numa situação em que eles estão juntos e José é carinhoso com Maria, dá atenção a ela, demonstra interesse…. a forma como Maria interpretaria isso (e agiria), seria de acordo com a sua operação motivacional, vejamos a seguir:

Tabela 2. Relacionamento de Maria e José:

 Operação MotivacionalAntecedenteRespostaConsequência
JoséOM que evoque respostas de exploração e variação  Na presença de pessoas de seu interesse  José será atencioso, carinhoso, afetuoso Receber atençãoReceber afetoNova experiência  
MariaPrivação de contatos amorososNa presença de comportamentos afetivos de JoséMaria retribui os afetosSatisfação da condição de privaçãoMaria cria expectativas de uma relação futura.

Vejamos que não há nada de errado no comportamento de nenhum deles, afinal, cada um tem se comportado de acordo com a sua operação motivacional, a questão, é que a curto prazo essa relação será benéfica a ambos, mas a médio/longo prazo, um deles, não terá a sua necessidade suprida.

Mas como vamos saber qual é a operação motivacional de cada pessoa com quem vamos nos relacionar?

Penso que, antes de saber a do outro, é importante que você tenha consciência de qual é a sua, do que você busca, quais são os seus objetivos e, aí sim, você poderá avaliar se o outro conseguirá suprir suas necessidades ou não.

Ser transparente sobre seus interesses é essencial dentro de qualquer relação, seja ela amorosa ou não, não existe nada de errado em querer estar num relacionamento amoroso, assim como, está tudo bem querer apenas conhecer novas pessoas, desde que isso fique claro para ambos. Se, ao conhecerem-se, ambos não explicitarem o que estão buscando, o relacionamento pode ser frustrante para ambos. Ambos serão vítimas do mesmo golpe: a comunicação imprecisa.


querer não é antecedente. A privação é a OE ( e o querer é o sentimento correlato a essa OM)

Aproveitar a vida não pode ser uma OM. Pode ser um efeito da contingência, mas não é uma alteração ambiental momentânea que evoca comportamento

querer nunca é um antecedente

O interessante aqui é que o contexto é o mesmo, as respostas são as mesmas, mas com função diversa

Bruna Catarina Pavani – @psicobrupavani

Especialista em Análise do comportamento (ITCR) | Pós graduanda em Sexologia (INPASEX)
CRP 06/135021

Categorias
Análise do Comportamento Clínica Questões sociais Relações humanas

Ainda esperamos por nossas Musas para começar a escrever?

Espero me recordar para sempre deste sonho.

Era uma noite escura, uma garota corria desesperada, lutando para manter o equilíbrio por entre uma estrada tortuosa. Atrás de si, uma besta horrenda rosnava em ao seu enlace. Por entre as árvores de caules negros, um cavalo se meteu em seu caminho, e a velha bruxa a tomou pelos pulsos, ajudando-a a fugir. No sacolejar da montaria, a velha explicava tudo para a garota sobre o que estava acontecendo e mais tarde, ao encontrarem seu tio e narrar toda a história, ele começa a escrever sobre os horrores trazidos por um artefato a uma afastada vila.

Durante todo o sonho, eu não fiz parte dele, quero dizer, toda a cena se desenrolava como se eu assistisse a um filme. Os personagens, já com nomes e funções dentro da narrativa eram mostrados, e o sonho terminava com o livro já sendo escrito. Eu me lembro da frase final, era algo como:

“E esta é uma história que narra muito bem o porque não se deve aceitar presentes de um estranho.”

Claro que utilizei este sonho para se tornar um romance que está em processo de criação. Essa não foi a primeira vez que fiz isso, nem mesmo a única. Nem mesmo eu sou o único a utilizar sonhos como fonte de inspiração. Harry Potter, romance que marcou uma geração inteira e tornou J. K. Rowling a primeira escritora de livro infantil milionária, teve sua ideia vinda de um sonho.

Quis começar destacando o sonho, porque, assim como a inspiração, este é um assunto que costuma estar envolvido certo misticismo e cujo interesse remonta a milênios atrás. Além de ser um resultado complexo de interações — bem, pela narração de meu sonho acima, acredito que seja sensato falar em muitas interações complexas envolvendo, principalmente, a história de vida individual e cultural. Essa associação, na verdade, é feita por Skinner (1957), mas já chegaremos lá.

Na Grécia antiga, a importância dada à inspiração foi tamanha que ela teve direito a um grupo de divindades: as Musas. Seres que inspiravam nos artistas as palavras certas em suas obras, abençoando-os em sua produção. Aliás, esta concepção era tão forte, que os gêneros possuíam uma marcação estrutural de invocar as Musas, ou outras divindades, para ajudá-los em sua empreitada artística, a qual se repete nas obras gregas Teogonia, Odisséia e Ilíada; romana, Eneida; portuguesa, Os Lusíadas e sobrevive até hoje, como em O amor de Apolo e Jacinto, em que o autor cearense mescla elementos da poesia épica com o cordel.

Eu poderia continuar a contar muitos outros rumores que circundam as diversas fontes de inspiração de escritores, porém quero, na verdade, falar sobre uma postura que parece perdurar desde os tempos de ouro da Grécia, se não antes: o de esperar a inspiração para começar a escrever.

Durante as eras, aprendemos a lidar com aquilo que entendemos por inspiração como sendo uma força motriz, por vezes única, de fazer o rio fluir. Uma pergunta rápida: quantas vezes você esperou pela inspiração para poder começar a escrever? E não me refiro unicamente a escritores literários, também já vi escritores acadêmicos reproduzindo o mesmo discurso quando questionados sobre o porquê de não escrever: “estou esperando a inspiração”, ou pelo menos: “estou esperando o momento perfeito”. Bem, sinto muito quebrar um pouco do romantismo, mas explicar a sua escrita através da inspiração, é a mesma coisa que falar que não escreve por um bloqueio. Voltamos àquele estado circular.

— Por que você está escrevendo mais?

— Porque eu estou inspirado!

— E como é que você sabe que está inspirado?

— Porque eu estou escrevendo mais!

Vamos lá, antes que desistam de mim por blasfemar contra a inspiração, afirmar que ela não produz a escrita, não é a mesma coisa que dizer que ela não existe.  Inspiração existe, sim, mas assim como o bloqueio de escrita, nós estamos falando de um estado — ativado por alguma razão ou razões — em que se observa uma maior facilidade para escrever, uma baixa no autojulgamento, uma maior fluidez e foco, e não de uma coisa que nos faz escrever.

Trazendo para a metáfora do rio, este é o momento em que afluentes estão favorecendo o seu rio da escrita, ou mesmo que não existem barreiras para represar suas palavras sedentas para sair. O que existe apenas é o horizonte inimaginável da escrita.

Eu sei, é bom se sentir assim. De certo modo, até viciante, não? O problema acontece quando nos relacionamos com a “Inspiração” como se ela fosse a única responsável por nos levar à escrita, pois, como em toda regra, o que se observa é uma maior insensibilidade ao seu contexto atual, podendo levar a padrões adoecidos (Hayes, Strosahl & Wilson, 2021). Ou seja, para começar e continuar sua escrita, alguém precisaria estar nesse ponto tido como ideal ou certo, caso contrário, ela poderia não ser boa, iria ser automatizada, sem emoção etc. Esse tipo de postura não difere tanto dos antigos à espera das divindades, das Musas: o protagonismo da escrita passa a não mais pertencer ao escritor, mas a esse outro, essa instância metafísica que nos anima, a inspiração.

Isso soa um pouco perigoso, porque nos faz adotar uma espécie de postura passiva diante da escrita. Inspiração é importante, sim, mas ela é apenas uma parte do processo, um aspecto motivacional o qual você deve usar a seu favor, e não ficar refém dele. 

Mas como a inspiração funciona? Seria possível fazermos algo para nos deixar mais abertos a esse estado?

Em minha experiência, seja como escritor ou psicólogo, ouvi diversos contextos que deram ideias sobre o que escrever a pessoas. Sonhos, matérias de jornais, conversas com amigos, uma paixão… Colocando-me um pouco aqui no texto, muitas de minhas ideias mesmo aparecem em sonhos, e desde que era mais jovem, é muito comum que o processo de criação de ideias ocorra enquanto eu ando! Aliás, uma das formas utilizadas por escritores para sair de um estado de bloqueio que mais foi citada na pesquisa de Ahmed (2019) foi andar.

Boice (1990), por sua vez, pode nos oferecer uma importante contribuição para esse estado que compreendemos como inspiração. O pesquisador, tendo como foco produções acadêmicas, reuniu um grupo de professores e arranjou uma série de contingências, atribuídas aos participantes aleatoriamente, dividindo-os em três grupos: o primeiro, em condição de abstinência, foi proibido de qualquer escrita não emergencial, imediata; para o segundo, em condição espontânea, agendaram-se 50 dias de escrita, mas os participantes só deveriam escrever quando se sentissem inspirados; e o terceiro, por sua vez, foi obrigado a escrever durante todos os 50 dias da pesquisa. Os resultados mostraram que o terceiro grupo não só escreveu consideravelmente mais em relação aos anteriores, como seus participantes também relataram ter ideias as quais consideravam mais criativas.

Anote esta dica: manter uma escrita constante, nem que seja por breves períodos, pode ser essencial para um estabelecimento de um hábito saudável. Mais à frente iremos conversar sobre isso. Por mais paradoxal que possa parecer, manter uma escrita constante pode ser uma variável importante para o surgimento de ideias criativas, como ocorre em estados de inspiração, e não o contrário como se pensa ou se costuma falar.

Skinner (1957), em um capítulo dedicado ao processo de autocorreção — processo que gostaria de retomar em textos futuros –, pontuou que estados de inspiração parecem estar associados com baixas nesse processo de edição. Assim como nos sonhos, não existem barreiras ou contingências punitivas de seu conteúdo, apenas um livre fluxo de informações, que guarda similaridade com a escrita automática (escrever livremente sem se autocorrigir, sem ponderar muito sobre as palavras a serem colocadas, deixando-as fluir). No caso, ele cita o exemplo do autor Stevenson, do célebre romance O Médico e o Monstro, cuja ideia para a obra também se originou em um sonho.

Como disse antes, o sonhar é apenas uma das diversas fontes de inspiração, isto é, desse estado motivacional que nos ajudaria a contribuir para a nossa escrita. Em minhas sessões, eu costumo pedir para que meus clientes estejam atentos a contextos que poderiam dar novas ideias, seja para a escrita literária, seja para a acadêmica. Por exemplo, um artigo que me deu muitas ideias foi o de Rose (2016), e sempre que o releio, parece que me vêm mais ideias para explorar em futuros trabalhos. Esta postura significa, principalmente, se deixar ouvir mais sem autojulgamento ou, principalmente quando for escrever, deixar que o rio flua sem barreiras.

Um benefício de pensar na inspiração como estado motivacional, é saber que ela na verdade é produto desses fatores, um efeito que adoramos e valoramos, em que coisas no mundo o inspiraram a ter aquela ideia, aquela fala, ou a estruturação de um conceito. Se a inspiração é produto de algo que fazemos, nossa postura não mais está passiva, mas sim ativa, protagonista, seja ao vermos uma notícia, encararmos uma memória ou lermos um artigo científico.

De todo modo, estar mais atento ao presente e ciente de seu processo de escrita, de um modo ativo e protagonista, é sobretudo um convite para procurar inspiração nos mais diversos recortes de sua vida! Observe seu mundo privado, seus pensamentos e sentimentos, ou mesmo olhe para o mundo externo, algum acontecimento peculiar, algum trabalho científico que leu, todos esses elementos podem ser a fagulha que estava procurando! Sempre anote suas ideias, sem receio ou julgamento — lembre que estamos falando de um processo aqui –, separe um espaço para se sentir livre para criar e retornar. Eu costumo fazer isso num arquivo de texto ou mesmo pelo celular, o importante é não perdê-las. Ideias são como sementes, antes de darem frutos, é necessário plantar, germinar e alimentar. Então, sim, mantenha suas sementes.

Inspirações não são eternas, ou seja, você, ou seu cliente, experimentará muitos estados de inspiração, mas todos eles terão seu início, meio e fim. Permanecendo com uma postura ativa, cultivando as práticas citadas acima, você poderá estar mais aberto e reconhecer a sua relação com a inspiração, tornando-se cada vez mais protagonista da própria escrita.

Referências Acadêmicas:

Ahmed, S. J. (2019). An Analysis of Writer’s Block: Causes, Characteristics, and Solutions.(Dissertação de Mestrado). University of North Florida, Jacksonville, FL. Disponível  em: https://digitalcommons.unf.edu/etd/903.

Boice, R; (1990). Professors as writers: A self-help guide to productive writing. Stillwater: New Forums Press.

de Rose, J. C. (2016). A Importância dos Respondentes e das Relações Simbólicas para uma Análise Comportamental da Cultura1. Acta Comportamentalia: Revista Latina de Análisis de Comportamiento, 24(2), 201-220. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/2745/274545739006/html/

Hayes, S. C., Strosahl, K. D. & Wilson, K. G. (2021). Terapia de Aceitação e Compromisso-: O Processo e a Prática da Mudança Consciente. Artmed Editora.

Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. New York: Appleton-Century- Crofts.

Referências Literárias:

Eneida – Virgílio

Harry Potter e a Pedra Filosofal – J. K. Rowling

Ilíada – Homero

O amor de Apolo e Jacinto – Mateus Costa

Odisseia – Homero

O Médico e o Monstro – Robert Louis Stevenson

Os Lusíadas – Luís de Camões

Teogonia – Hesíodo.

Categorias
ansiedade Clínica trilhas

Díade|Lab – Trilhas: Aprendendo sobre a ANSIEDADE. Você tem medo de que?

Por Denis Zamignani (DíadeLab, Paradigma, Evolucio Capacitação)

Esse é o terceiro episódio da série DíadeLab Trilhas. Pra você que está na maior pilha pra estudar mas precisa de uma mãozinha pra não se perder no caminho!

Continuamos nossa viagem sobre o mundo da Ansiedade, mas o tema agora é Medo. Mas pra começar essa trilha sem medo, vamos relaxar um pouco, ao som de Lenine e Julieta Venegas… “O medo é uma linha que separa o mundo; O medo é uma casa aonde ninguém vai; O medo é como um laço que se aperta em nós; O medo é uma força que não me deixa andar”.

Escrever esse texto me fez me dar conta do quanto é difícil começar a “parir” o primeiro parágrafo… por onde começar? será que o pessoal vai gostar do tema? Será que vou conseguir ser claro o suficiente? E quando me dei conta, estava passando por um dos medos mais comuns do mundo acadêmico… a ansiedade de escrever. E é sobre isso que fala o texto do Jacinto Júnior “O processo comportamental da escrita”, no Blog da DíadeLab.    

O fato é que algumas situações deixam a gente morrendo de medo. Já outras deixam a gente um pouco ansioso. Mas será que medo e ansiedade são a mesma coisa? Quando a gente tem medo, sente ansiedade? Toda ansiedade envolve medo? No vídeo “Medo x Ansiedade”, o psiquiatra Cassiano Zortéa conta pra gente que o medo é uma resposta emocional a uma ameaça presente, enquanto a ansiedade se dá pela antecipação de uma ameaça futura. Vale a pena conferir!

Por que será que a gente tem medo? Será que a vida não seria muito mais divertida sem ele? Nesse vídeo “Por Que Sentimos Medo” do canal Ciência Todo Dia (aliás super recomendo esse canal!), você pode ver que não é bem assim.  Sem o medo, talvez nossa espécie tivesse dado lugar a algum outro ser – baratas, talvez? Arghhh

O medo e a ansiedade são os principais componentes dos transtornos de ansiedade. Mas é nas Fobias que o medo se destaca como componente central. Então, vamos falar um pouco sobre Fobias específicas? Roberto Banaco, nesse episódio do Programa “Como Será”, conversa sobre Fobias com a jornalista Sandra Annenberg.  Ele aponta que o medo, assim como todas as emoções, é importante porque nos preparam para agir em situações de ameaça. Já a fobia é geralmente um medo aprendido – e exagerado, e que por isso pode prejudicar o desempenho do indivíduo. No entanto, é importante lembrar que quando falamos de uma fobia estamos falando de comportamento, e não de uma doença. O nome Fobia descreve comportamento, mas não explica comportamento. É o que explica o artigo de Bruno Alvarenga no Minuto Psicologia.

Esse princípio trazido pelo texto de Bruno Alvarenga faz com que cada caso de fobia seja tratado de maneira individualizada. É o que mostra a Aula 8 do curso de estudos de caso da DíadeLab, na qual a Dra. Regina Wielenska relata o manejo de diferentes casos de Fobia de deglutição e aponta como, para cada caso, a análise de contingências conduz a diferentes estratégias de intervenção.

O curioso disso tudo é que poucas vezes somos procurados em nossos consultórios para tratar desse tipo de fobia. Na maioria das vezes o cliente dá um jeito de organizar a vida para não ter que lidar com o problema, a não ser que ele atrapalhe sua vida profissional ou social. É o caso, por exemplo, das fobias de avião ou fobia de dirigir, quando a pessoa perde oportunidades profissionais por não conseguir viajar. Um dos recursos de ponta disponíveis para esses casos é o tratamento de exposição por meio de realidade virtual, como apresentado nesse estudo orientado pela Dra. Verônica Bender Haydu.  

Você tem alguma dica pra tornar essa trilha ainda mais interessante? Escreva aqui nos comentários suas sugestões de leitura, vídeos, áudio e compartilhe com a gente sua experiência!

Comunidade DíadeLab… Juntos a gente chega mais longe!

Categorias
Sem categoria

O que um sapo pode te ensinar sobre relacionamento abusivo?

por Bruna C. Pavani

De acordo com Barreto (2015), um relacionamento é abusivo quando há excesso de poder e controle entre uma das partes. Os sinais de abuso iniciam de forma sutil e podem avançar gradualmente, podendo chegar à violência física ou psicológica, causando sofrimento e trazendo prejuízos à qualidade de vida, saúde mental e física da vítima.

Apesar de ter tido maior destaque na mídia nos últimos tempos – principalmente por conta do aumento dos casos na pandemia-, ninguém está livre de entrar em um relacionamento abusivo.

Em 2006, foi instituída a Lei maria da Penha (11340/06) cuja principal função é coibir, prevenir e erradicar a violência contra a mulher. Mas é importante ressaltar que relações abusivas independem de gêneros.

Quando pensamos que um relacionamento abusivo começa de forma sutil, sempre gosto de lembrar da metáfora do sapo e da água fervente:

‘’Se você puser um sapo numa panela, enchê-la com água e colocar no fogo, vai perceber que o sapo se ajusta à temperatura e permanece dentro, porém, quando a temperatura atinge um grau elevado, o sapo não consegue sair mais na panela e isso não é por conta da temperatura, mas sim, por estar cansado por ter se ajustado tantas vezes à temperatura da água. Agora, se colocarmos um sapo numa panela já com a água fervendo, de imediato o sapo pula fora.’’

Quando iniciamos um relacionamento, as situações abusivas não se iniciam com a “água fervendo”, caso contrário conseguiríamos pular fora de imediato. Mas o que seria essa água fervendo? Depende. Para cada individuo pode ser uma coisa diferente e depende da forma como cada pessoa discrimina as contingências em ação.

Quando iniciamos um relacionamento, geralmente, “a água está fria” e “pode ir se aquecendo aos poucos” e é isso que chamamos de forma sutil. O comportamento do abusador vai se refinando e a vítima vai reforçando seu comportamento sem muitas vezes ter consciência das consequências que isso pode lhe ocorrer. Vejamos um exemplo:

Imaginem um casal que iniciou um relacionamento recentemente: João e Maria.

Quadro 1. Retrato do relacionamento de João e Maria:

João diz a Maria que gostaria de saber mais sobre suas amizades, afinal, gostaria de conhecê-la melhor. Maria, feliz, conta para João sobre todos os seus amigos e diz que quer levá-lo para conhecê-los. Quando João conhece seus amigos, comenta com ela que fica desconfortável com a forma como Maurício a trata, pois parece que ele está apaixonado por ela. Com isso, Maria decide se afastar de Maurício para evitar desentendimentos com João.

Quando olhamos apenas para a forma (topografia) do comportamento de João, ele parece apenas demonstrar interesse em conhecer melhor a namorada e seus amigos, mas a função nem sempre corresponde à topografia. Neste caso, a função era ter controle sobre Maria e as pessoas com quem ela convivia. Maria reforça o comportamento de João ao se afastar de Mauricio.

Quadro 2. Retrato do relacionamento de João e Maria:

Após alguns meses, Maria comenta com João que terá um aniversário de uma amiga ao qual ela gostaria muito de ir, mas que será apenas para garotas e que ele não seria convidado, João fica emburrado e fica sem conversar com Maria por um tempo. Maria decide não ir ao aniversário.

Novamente, a topografia pode parecer diferente da função: A forma neste caso sugeria desconforto, mas a função é também de controle sobre o comportamento de Maria. Mais uma vez, Maria reforça o comportamento abusivo de Joao quando desiste de ir ao aniversário.

Quadro 3. Retrato do relacionamento de João e Maria:

João e Maria começaram a passar mais tempo juntos e se divertem quando estão juntos, o que é reforçador a ambos. Mas o final do ano chega e os pais de Maria combinam uma viagem com ela e antes de dizer a João, Maria já recusa pois sabe que João não iria gostar. Maria passa o final do ano com João e João varia o seu comportamento entre grosserias e carinhos.

Além dos prejuízos sociais que Maria tem por já não sair mais com seus amigos, Maria se priva de atividades prazerosas para ficar com Joao como forma de evitar discussões, porém, entra no ciclo do relacionamento abusivo:

É importante lembrar que nem sempre a relação abusiva é de fácil identificação e isso se dá por conta da variabilidade de comportamentos que podem ser emitidos dentro de um relacionamento, assim como variam as funções dos comportamentos emitidos. Mas, existem alguns comportamentos que estão sempre presentes dentro de relacionamentos abusivos, como: Controle, ciúmes e isolamento social e é importante nós, como psicoterapeutas ficarmos alertas a estes sinais.

Barretto, R.S. (2015) Psicóloga explica relacionamento abusivos: o que é e como sair dessa situação. Entrevista. UNESP, São Paulo. Recuperado de: http://reporterunesp.jor.br/2015/08/20/psicologa-explica-relacionamentos-abusivos-oque-e-e-como-lidar-com-essa-situacao/

Barretto, R.S. (2015) Psicóloga explica relacionamento abusivos: o que é e como sair dessa situação. Entrevista. UNESP, São Paulo. Acesso em: http://reporterunesp.jor.br/2015/08/20/psicologa-explica-relacionamentos-abusivos-oque-e-e-como-lidar-com-essa-situacao/

WALKER, Lenore. The battered woman. New York: Harper and How, 1979.

_____. LEI MARIA DA PENHALei N. °11.340, de 7 de Agosto de 2006

Bruna Catarina Pavani – @psicobrupavani

Especialista em Análise do comportamento (ITCR) | Pós graduanda em Sexologia (INPASEX)
CRP 06/135021

Categorias
Análise do Comportamento terapia baseada em processos

Terapia Baseada em Processos e o Retorno ao Tratamento Individualizado

por

Denis Zamignani /Fernanda Calixto / Pedro Quaresma

Um novo paradigma em psicologia clínica parece estar surgindo. A proposta de uma Terapia Baseada em Processos (TBP) questiona o modelo anterior da terapia baseada em evidências por se apoiar no modelo de doença médica com protocolos de terapia específicos vinculados a síndromes descritas nos manuais psiquiátricos.

Trata-se de uma nova geração de cuidados terapêuticos baseados em evidências, voltada para a intervenção  sobre processos comportamentais transdiagnósticos (Hayes & Hofmann, 2018). A ênfase nesses processos transdiagnósticos representa uma mudança no desenvolvimento dos estudos de efetividade em psicoterapia, em que os processos (tais como esquiva experiencial, regulação emocional ou Flexibilidade Psicológica) ganham mais relevância no tratamento que os procedimentos (Mindfulness, exposição com prevenção de respostas, dessensibilização). 

Autores que têm defendido o modelo de TBP apontam que muitos dos manuais de intervenção para diferentes transtornos psiquiátricos descrevem basicamente os mesmos processos comportamentais na especificação de seus sintomas. Adicionalmente, defendem que a queixa clínica de um indivíduo nem sempre se encontra representada unicamente pelo conjunto de sintomas descritos nos transtornos. Para cada indivíduo existe uma possibilidade de combinação infinita de processos comportamentais envolvidos nas suas demandas terapêuticas. 

No modelo de TBP há um retorno à ênfase no tratamento altamente individualizado e criativo por parte do terapeuta. Bem como, quando nos referimos à analistas do comportamento, do retorno da presença da análise de contingências como base do trabalho do clínico. Assim, há um retorno ao papel central da análise específica de cada caso clínico conduzida pelo terapeuta na mudança nas vidas dos seus clientes. 

Hofmann, Stefan G., & Hayes, Steven C.. (2018). TCC Moderna CBT: movendo-se em direção a terapias baseadas em processos. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 14(2), 77-84. https://dx.doi.org/10.5935/1808-5687.20180012

Categorias
Sem categoria

COMO FAÇO PARA DEIXAR DE SENTIR?

por Bruna Catarina Pavani

No último texto sobre Frustração, comentei que falaria sobre como aceitar melhor o que sentimos e é sobre isso que vamos falar hoje.

Diante do número crescente de mortes, a COVID-19 tem causado outra pandemia: a do medo e ansiedade. A COVID-19 mudou a forma como nos comportamos, como nos relacionamos, como fazemos planos.

De início imaginamos que seriam apenas 15 dias em casa e estes 15 dias viraram 1 ano. E de que forma isso nos afeta?

Nos tornamos pessoas mais ansiosas, menos tolerantes a frustrações, mais estressadas, com dificuldades para dormir, com alterações no apetite etc.

Ignorar o que sentimos só piora a situação. A melhor forma de lidar com isso é nos acolhendo. Mas será que dá para fazer isso?

Crescemos em uma sociedade onde ficar triste, magoado, com raiva, irritado é visto como algo ruim. Quando isso acontece, logo vem alguém dizer: ‘’mas a sua vida é tão boa e você está aí triste’’, invalidando seus sentimentos. Nomeamos isso de: positividade tóxica, mas pera aí, alguém aqui consegue controlar o que sente?

Se eu falar para vocês:

 ‘Não pensem em um bolo de chocolate com recheio de prestígio’

Provavelmente, a primeira coisa que vocês pensaram, foi num bolo de chocolate com recheio de prestígio e por que vocês não controlaram isso? Porque simplesmente não dá, simplesmente não depende apenas de você. E é a mesma coisa dos sentimentos…

Hayes e Pistorello (2015) dizem:

‘’Tendemos a formular regra de não pensar (ou sentir, ou lembrar) no evento aversivo, mas na própria regra: “não vou pensar em x”; o “x” está presente e transformará a aversividade do evento para a palavra, tornando aquilo que se quer evitar, presente. E por esta razão que o controle dos eventos encobertos não funciona efetivamente, pois não se trata de uma pedra que se esconde num lugar distante e não se vê mais; o comportamento verbal faz da simples pedra aquela que sempre volta no meio do caminho.’’ (p.24)

Somos ensinados e tentar evitar tudo o que é considerado negativo: pensamentos ou sentimentos. E eu concordo que é desgostoso sentir raiva, tristeza, angústia, frustração etc., porém, esses sentimentos também são importantes e precisamos avaliar em que situações estamos nos sentindo assim…

Hayles e Pistorello (2015) mencionam dois motivos pelos quais as pessoas tentam ter controle sobre os comportamentos encobertos:

  • Eles costumam funcionar bem nos eventos abertos
  • O controle funciona a curto prazo, gerando assim, um reforço negativo significativo.

Ou seja, nossa própria cultura nos ensina que, se ignorarmos o que estamos sentindo, uma hora passa, mas a verdade é que não passa.

Quando você passa aceitar que está tudo bem se sentir dessa forma, porque condiz com a situação, você percebe que da mesma forma que o sentimento vem, ele vai embora… Quanto mais você tenta lutar para não se sentir de determinada forma, mais você vai se sentir.

Uma dica que dou é: Converse com teus sentimentos, avalie o porquê você está se sentindo dessa forma (avalie os antecedentes), perceba se esse sentimento condiz com a situação e diga para si mesmo ‘está tudo bem eu me sentir dessa forma, eu sei que logo vai passar’.

Hayes, S.C. e Pistorello, J. (2015). Introdução a Terapia de Aceitação e Compromisso. Belo Horizonte/MG: Artesã.

Bruna Catarina Pavani – @psicobrupavani

Especialista em Análise do comportamento (ITCR) | Pós graduanda em Sexologia (INPASEX)
CRP 06/135021

Categorias
Sem categoria

Psicólogo: O que você faz para evitar a solidão profissional?

Autor: Comunidade DíadeLab*

Muitos terapeutas encaram a profissão como uma jornada muito solitária. Para estes, boa parte do dia a dia é focada na relação profissional, paciente/cliente e na jornada de atendimentos, com pouca oportunidade de interações sociais fora desse contexto. Isso parece algo comum ao seu cotidiano? Pois saiba que realizamos uma enquete entre psicólogos e, 79% dos 34 respondentes se dizem solitários na profissão (parece bastante, você não acha?). 

Às vezes faz muita falta uma rede de apoio! Precisamos falar sobre nossos casos, discutir, desabafar e ter supervisão mesmo que informal entre colegas. E, para evitar a solidão no dia a dia de trabalho, é necessário buscar contato com os pares ativamente. Seja por meio de grupos de estudos ou interagindo nas redes sociais, o importante é criar oportunidades de interação. Fazer psicoterapia, supervisão ou intervisão também está entre as boas estratégias de interação social, assim como compartilhar as angústias sobre o tema com outros profissionais.

Segundo os membros da comunidade que responderam à nossa enquete, outra forma de driblar a solidão é participar de eventos, acompanhar lives e outros recursos disponíveis na rede, além de cursos e atividades nas quais possa  interagir com alunos e professores – durante e após os encontros. Não podemos esquecer também das sugestões de prática de atividade física e de, sempre que der certo, sair para tomar um café com um amigo entre um atendimento e outro.

Especialmente nesse período de Pandemia, em que fomos privados de contato com boa parte de nossa rede de apoio, o auto-cuidado e a criação de uma rotina enriquecida podem ser essenciais para preservar nossa saúde mental. Nesse vídeo, Denis Zamignani analisa as contingências às quais nós, terapeutas, estamos submetidos e propõe algumas estratégias para auto-cuidado. Não à toa, o título é “Sabe lá o que é não ter e ter que ter para dar”.  

Se você está entre os que se sentem desacompanhados, teça, entrelace, desenvolva sua rede de apoio junto com a gente. A Díade|Lab é uma comunidade digital de analistas do comportamento. Sua contribuição pode tornar essa comunidade uma fonte cada vez mais rica de interações acolhedoras e reforçadoras. Conte pra gente o que você espera de uma comunidade de analistas do comportamento e de terapeutas. Dê sugestões, proponha atividades, organize grupos de estudo e a gente vai fazer o possível para fazer a sua ideia se transformar em realidade. Vamos fazer isso juntos?

*Esse texto foi escrito coletivamente pelos membros da DíadeLab com a compilação das respostas à enquete do movimento ‘Solidão Profissional’ no Instagram da @diadelab

Categorias
adolescência Análise do Comportamento Clínica

Limites (e sugestões) para orientação de pais em atendimentos com adolescentes

Gessika N. Gimenez Hilgemberg

Sabemos que em um processo terapêutico infantil sob perspectiva da Análise do Comportamento, a participação dos pais é de extrema importância. Muitos autores salientam inclusive que psicoterapia infantil sem a participação dos pais é inviável (para não falarmos que é impossível).

Mas e quanto a participação dos pais em um processo que envolve os adolescentes? Quais são os limites? Até qual ponto a participação deles pode ser eficiente ou até atrapalhar? Quando começamos a olhar para este aspecto, nos deparamos com um ponto crucial: a relação terapêutica.

Os adolescentes são conhecidos (de forma muitas vezes generalista e até equivocada) como um público desconfiado, inseguro e que preza pela sua privacidade. Só por aí já temos informações (sejam elas verídicas ou não) de como precisará se dar a relação com estes clientes. Para aqueles que topam e se engajam no processo, eles muitas vezes esperam que o terapeuta seja a pessoa acolhedora, empática e não punitiva diante de seus relatos de aventuras e sofrimentos vividos. Esperam que o terapeuta “entre” em suas descobertas e que a terapia possa ser um lugar seguro e que nada do que ele falar seja criticado ou exposto – principalmente para os pais.

Mas em determinados momentos, orientação aos pais é por vezes importante. Imagine um cliente de 17 anos que apresenta padrão comportamental de ansiedade social e dependência de outros, que está engajado para mudanças e enfrentamentos, e já trabalhou estratégias de ansiedade em terapia. Ele reside a poucas quadras do consultório do terapeuta, mas os pais ainda o trazem para as sessões. Entraria, em algum momento da terapia, a estimulação e encorajamento por parte do terapeuta para que aquele cliente experimentasse caminhar até o consultório por alguns metros, sozinho. E aí caberia uma conversa de orientação ao pais para que estimulassem este cliente também a vir sozinho e fazer esse enfrentamento rumo a melhora. Mas neste momento, todo o cuidado é necessário para que não seja quebrado o vínculo com o adolescente, onde ele é seu cliente e você deve seu sigilo.

Para isto, tomo alguns cuidados neste processo. Estes claro, modelados pelo acerto e erro na prática clínica, supervisões e literatura. São alguns deles:

  • Sempre que for necessário chamar os pais, comunico de antemão ao meu cliente pedindo sua autorização. Explico qual meu objetivo ao trazer os pais para o consultório, muitas vezes faço a análise funcional do porque seria importante ter essa conversa com eles e garanto o meu sigilo a ele. Dificilmente converso com os pais sem antes ter este aval por parte do cliente.
  • Tomo o cuidado de na sessão seguinte a conversa com os pais, trazer para meu cliente os pontos importantes que foram discutidos. Isso auxilia para que o cliente não entre em ansiedade em querer saber o que foi conversado ou que não crie fantasias de que o terapeuta e seus pais possam ter criado uma aliança contra o cliente, por exemplo. Isto claro, de acordo com o interesse do cliente. Alguns não estão interessados em saber (pode ser aversivo) e aí informo apenas aquilo que é relevante para o trabalharmos o caso ou relevante para o cliente.
  • Outro cuidado que considero ser importante é que na grande maioria das vezes opto por fazer a orientação aos pais sem a presença do cliente. Isso pois muitas vezes eles consideram ser muito aversivo estar ali, com os pais, onde muitas vezes estes podem criticar ou julgar algum comportamento do filho. Provavelmente terminará em um “climão”, onde o objetivo daquele encontro sai de orientação aos pais e caminha para terapia familiar. Mas claro, existem as excessões. Se a análise funcional mostra que será mais importante para o vinculo com você, ou que aquele cliente quer participar para esclarecer juntamente de ti alguns pontos, é muito válido incluir. Desde que ele tenha o interesse e a análise do caso mostre que aquilo será benéfico para seu cliente.
  • Existe também outras duas possibilidades que encontro na clínica: quando o cliente não quer que o terapeuta faça essa conversa ou quando envolve comportamento de risco. No caso da primeira, explico todas as consequências favoráveis para que eu realize aquele encontro, protejo nossa relação falando sobre o sigilo, mas tem vezes que não tem como. O cliente não está disposto. Neste caso, escolho por acolher e mostrar compreensão. Tento compreender seus motivos, converso sobre eles e informo inclusive que aguardo e que não agendarei minha conversa com os pais sem sua autorização. Mas é comum que eu avise que em algum momento isto precisará ser feito, podendo não ser na próxima semana, mas talvez na outra ou em algum outro momento. E junto disto, avalio sempre a função para que aquele cliente não autorizasse essa minha reunião com os pais.
  • Um segundo caso que muitas vezes elicia respondentes em nós terapeutas é quando o cliente está emitindo comportamentos de risco a si ou a outros e precisaremos comunicar os pais. Nesses casos, mostro ao cliente as consequências daquele comportamento e as consequências que eu enquanto terapeuta estarei correndo também caso não avise aos responsáveis. Em geral, o cliente costuma aceitar que este contato seja feito, mas para aqueles que não aceitam, mesmo assim é de extrema importância que seja comunicado o que está ocorrendo para algum de seus responsáveis e com isto a quebra do sigilo aconteça (e a importância de sempre registrar em prontuário ou documentação este contato que foi feito). Entramos aqui em uma questão inclusive ética, onde temos em nosso código, no Artigo 27°, que a quebra do sigilo profissional está prevista para casos onde o (a) paciente encontra-se em risco ou oferece risco a terceiros, sendo considerado a falta desta comunicação como um comportamento anti-ético.

Claro, estas são algumas diretrizes que eu enquanto terapeuta sigo com base no repertório que fui desenvolvendo ao longo dos anos, mas saliento que a peça chave para a tomada de qualquer uma destas decisões acima, ou qualquer outra, esteja embasada na sua análise funcional do caso.

Referências:

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional dos Psicólogos, Resolução n.º 10/05, 2005.

EMIDIO, L. A. S.; RIBEIRO, M. R. & DE-FARIAS, A. K. C. R. Terapia infantil e treino de pais em um caso de agressividade. Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, 2009, Vol. XI, no 2, 366-385.

MARINHO, M. L. A intervenção clínica comportamental com famílias. Em: SILVARES (org.). Estudos de caso em psicologia clínica comportamental infantil. Volume 1. Campinas, SP:Papirus, 2000.

Gessika N. Gimenez Hilgemberg

CRP: 08/19706

Categorias
Sem categoria

E o que fazer com a esquiva de se relacionar novamente?

Bruna C Pavani

Quando acabamos de sair de um relacionamento amoroso, precisamos lidar com o luto do término, independente se é um relacionamento saudável ou não.

Descrevendo o término de uma forma comportamental: é quando deixamos de entrar em contato com reforçadores que o outro nos fornecia e começamos entrar em contato com sentimentos aversivos como raiva, baixa autoestima, saudade, tristeza, solidão, que são consequências do próprio término.

É como dar um doce a uma criança e depois de um tempo tirar esse doce e falar para essa criança lidar com isso.

 Você já conheceu a parte boa de uma relação, agora ter que conhecer a parte desagradável, e para algumas pessoas, é aversivo demais, ao ponto de se esquivarem de futuras relações. E com isso, começamos com um novo conceito: Esquiva.

De acordo com Sidman (1989/2009), esquiva é uma das formas de reforçamento negativo – sendo a outra forma, fuga – onde podemos considerá-la antecipatória, por exemplo: não esperamos levar uma bronca do chefe para corrigirmos algo que já vimos que está errado, nós vamos corrigindo antes mesmo da bronca aparecer, ou, evitamos ficar parados na rua sem gasolina, ao invés disso, quando vemos que está acabando, tendemos a abastecer.

É notório o quanto a esquiva é essencial para a nossa sobrevivência, né?

Porém, uma pessoa que possui um comportamento de esquiva bem refinado, pode ter prejuízos. Sidman (1989/2009) traz algumas desvantagens do comportamento de esquiva:

  • Empobrecimento do repertório comportamental, já que, o indivíduo não se expõe a contingências para averiguar se passará por uma situação semelhante a anterior.
  • Contingências de esquiva são coercitivas e se caracterizam pela presença de fortes respostas emocionais como raiva, tensão, medo e ansiedade.

Trazendo isso para o âmbito amoroso e para uma pessoa que possui um comportamento refinado de esquiva, vamos pensar em possíveis prejuízos:

  • Essa pessoa possivelmente deixará de conhecer novas pessoas com receio de sofrer novamente;
  • Essa pessoa não irá se expor a eventos sociais, onde tem possibilidade de entrar em contato com novas pessoas;
  • Essa pessoa deixará de vivenciar bons momentos por receio de vivenciar os momentos desgostosos também

Como psicoterapeutas comportamentais, é importante entendermos o que mantém esse comportamento em nosso cliente e concomitantemente, ir promovendo a aproximações de eventos aversivos de uma forma que o cliente consiga lidar, desenvolvendo assim, habilidades sociais necessárias para lidar com a situação. Sidman, M. (1989/2009). Coerção e suas implicações. Trad. Maria Amália Andery & Tereza Maria Sério. Campinas: Livro Pleno. P.135-176

Bruna Catarina Pavani – @psicobrupavani

Especialista em Análise do comportamento (ITCR) | Pós graduanda em Sexologia (INPASEX)
CRP 06/135021

Categorias
Sem categoria

O processo comportamental da escrita

“Não tenho tempo para escrever”. “Todos sabem escrever, menos eu”. “Quando lerem o que escrevi, todos saberão que eu sou uma farsa”. Esses são alguns dos pensamentos compartilhados entre pesquisadores e pesquisadoras, das mais distintas áreas do conhecimento, perante a temida página em branco sempre a lembrá-los daquilo que por mais um dia não fizeram com conforto e satisfação: escrever.

(O Bloqueio da Escrita Acadêmica: caminhos para escrever com conforto e sentido. Robson Cruz, 2020, p. 9)

Eu não sei o quanto de vocês podem achar pertinente um enfoque maior sobre a escrita, mas para mim, escritor acadêmico e literário, demorei bastante para perceber a profundidade daquilo que escolhi como ofício a ser realizado para o restante de minha vida. Foi preciso que o escrever me trouxesse um sofrimento intenso, crises de ansiedade encarando a tela branca do word, tirasse meu sono de frustração, para que eu começasse a encarar como um problema sério e levar para a terapia. Lá, em movimento clínico, percebi que colocar rabiscos em papéis ou ver a projeção de palavras no computador era apenas uma parte de um processo maior e complexo.

Infelizmente, não estou apelando para meu lado exagerado de escritor, ao falar que a escrita está acompanhada de sofrer. Cruz (2018; 2020), Silva (2018) e Skinner (1957)   nos alertam para uma série de contingências aversivas associadas ao escrever, em que sentimentos de culpa, tristeza, ansiedade aparecem com mais frequência do que as próprias palavras. A razão primeira é até fácil de imaginar: nós escrevemos para ser julgados, seja por um orientador, editor de revista, leitor ou seguidor no Instagram. Para piorar a nossa situação, observa-se uma baixa fonte de reforçadores, como a falta de prestígio e retorno financeiro. Por exemplo, nos Estados Unidos, somente 21% das pessoas que trabalham com a escrita conseguem viver apenas com a renda obtida pelos direitos autorais (Watson, 2020). E para dar a cereja reluzente sobre o bolo, desde o século XIX muitas noções romantizadas, reproduzidas culturalmente, enfeitam e delineiam padrões inverossímeis com a realidade — o que poderia nos explicar os sentimentos de culpa que aparecem.  O pior é que a academia parece não estar tão atenta e engajada para a solução dessas questões (Cruz, 2018; 2020).

Talvez neste momento alguns episódios podem estar vindo à cabeça com desconfortos sentidos ao escrever. E, assim como eu, pode ser que um questionamento também esteja começando a martelar em sua cabeça, como martelou na minha: ok, então o que diabos é a escrita, afinal?

Em meus atendimentos, costumo usar uma metáfora de que a escrita é como um rio. Haverá momentos em que obstáculos aparecerão para impedir o seu fluxo, em outros momentos, afluentes podem fazer com que ele aumente e transborde. É verdade, contudo, que um grande fluxo nem sempre significa algo saudável, já que esse rio pode causar inundações, mas ninguém de fato gosta quando está seco.

Traduzindo para uma linguagem comportamental, a escrita é um comportamento complexo, de parte privada e parte pública, cujas variáveis poderão dificultar ou facilitar a sua frequência. Como todo padrão aprendido, a história individual e cultural, a forma com qual o indivíduo se relacionou com a escrita ou contextos que a envolveram são capazes de afetar num nível de transformar uma atividade simples para uns, algo extremamente penoso para outros. Muitas vezes, esses desconfortos e sofrimentos sentidos são tão intensos que geram um movimento de esquiva acentuado, prejudicando projetos de vida, como observado por Daily e Miller (1975; 1983), em que pessoas com alta taxa de ansiedade envolvida com a escrita,  passaram a evitar disciplinas ou cargos profissionais que de alguma maneira trabalhem com produções escritas. A este fenômeno foi dado o nome de “Apprehensive Writer”.

Veja que em nenhum momento está se falando de preguiça, falta de empenho — muito menos falta de um dom! —, mas de uma condição comportamental que, pelo menos desde 1957, em Verbal Behavior, Skinner já nos sinalizava uma potencialidade de sofrimento envolvido. Especialmente a Academia deveria estar preocupada com isso, não somente porque enquanto disciplina científica responsável por tais fenômenos, como, ao meu ver,  essa barreira está afetando nossas produções acadêmicas, nossas pesquisas e publicações, tal qual um déficit basilar. Afinal, não é a ciência uma utilização específica da linguagem? (Skinner, 1957) Se precisamos escrever para descrever e estudar nossos objetos de estudos, o que acontece se cientistas não estão escrevendo?

Aos professores e orientadores que estiverem me lendo, quantas vezes vocês não viram uma aluna ou aluno desistir, apesar de evidente o quanto conhecia e o quanto tinha para contribuir? Quantas vezes vocês mesmos não pensaram em desistir por mais que soubesse exatamente o que queria escrever? Quantos cientistas não estamos perdendo?

Então, se escrever pode ser causa para muitos sofrimentos — como em casos de condições intensas, tal qual Apprehensive Writer —, por que não abordamos isso com mais ênfase? O quanto estaríamos preparados, como profissionais, para atender clientes com tais demandas? Será que apenas uma dessensibilização sistemática seria o suficiente para lidar com essas altas taxas de ansiedade em que indivíduos têm mudado sua vida inteira afim de evitar a escrita? E quanto a nós mesmos, escritores, quais práticas que realizamos nos ajudam ou atrapalham?

É com a tentativa de ajudar outros escritores, acadêmicos ou literários, a não passar pelo o que passei, que dou início a esta série de textos sobre o processo comportamental da escrita. Espero ter conseguido sua atenção e curiosidade até aqui, que minhas palavras sobre a própria dificuldade de escrever as palavras, tenham colocado uma pedrinha em nosso sapato analítico-comportamental. Para o próximo encontro, gostaria de lançar uma proposta: tente lembrar das vezes em que tentou escrever e sentiu dificuldades, o que pensava? O que sentia? Qual era o contexto? Estas perguntas podem trazer certas reações emocionais aversivas, então tome seu tempo para revisitar essas memórias. No próximo texto iremos abordar o terrível e famigerado Bloqueio de Escrita, e olhar para nossa história com o escrever poderá ser uma bússola muito útil nessa jornada.

Até lá, fiquem bem e em segurança!

Referências:

Cruz, R. N. (2018). Becker e o silêncio sobre a escrita na pós-graduação: soluções antigas para o cenário Brasileiro atual?. Psicologia & Sociedade, 30.

Cruz, R. N. (2020). O Bloqueio da Escrita Acadêmica: caminhos para escrever com conforto e sentido. Belo Horizonte: Artesã.

Daly, J. A., & Miller, M. D. (1975). The empirical development of an instrument to measure writing apprehension. Research in the Teaching of English, 9(3), 242-249.

Daly, J. A., & Wilson, D. A. (1983). Writing apprehension, self-esteem, and personality. Research in the Teaching of English, 327-341.

Watson, A. (2020, April 24). Number of writers and authors in the United States from 2011 to 2019. Statista.

Silvia, P. J. (2018). How to write a lot: A practical guide to productive academic writing. American Psychological Association.   Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. New York: Appleton-Century- Crofts.

Jacinto Junior – Psicólogo formado pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR – 2020). Escritor de Literatura e Co-Fundador do coletivo de Escritoras e Escritores Nordestinos: Oxe LGBT NE. Atua com processos clínicos e com atendimentos focados para a escrita.

Onde encontrar:

Instagram: @autorjacinto/ @projetoparnaso/ @oxelgbtne